Política e mentira

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“Os fins justificam os meios.” (Nicolau Maquiavel)

A frase acima, da obra clássica “O Príncipe”, do pensador florentino Nicolau Maquiavel é utilizada como máxima do realismo político há muito tempo. Está, no entanto, fora de contexto, pois extraída do texto original, não nos permite visualizar toda a reflexão desenvolvida por este filósofo renascentista. Assim sendo, e mal interpretada como tem sido ao longo de todo o tempo desde sua primeira publicação, ao cair nas mãos de políticos inescrupulosos e sequiosos de mais poder, tem sido usada para justificar ações indevidas, espúrias, ilegais e imorais.

Acima de tudo, ao se escorar em escusas falsas ou, mais precisamente, na mentira, tais mandatários, em busca da preservação do poder a qualquer custo, usurpam do povo a possibilidade real de contar com governos legitimamente devotados ao que deveriam fazer no comando das ações de interesse público, ou seja, legislar em prol da coletividade e não de seus próprios interesses ou de grupos minoritários, visando em especial a preservação de seus postos de comando e enriquecimento ilícito.

Política e mentira andam muitas vezes de braços dados no Brasil e, também em outras partes do mundo, mas mais precisamente na nação brasileira, onde reina a impunidade para os poderosos, acabou se tornando, historicamente, a forma pela qual partidos e seus representantes se utilizam de seus cargos e mandatos sem que necessidades reais e demandas que estão pendentes há décadas sejam solucionadas.

Na realidade, além de não solucionarem questões históricas, como a evidente defasagem da qualidade de ensino brasileira, o atendimento hospitalar ineficiente, as estradas esburacadas, o sistema fiscal que exaure o cidadão e o setor produtivo, o custo brasil, a seca no Nordeste e outras situações de notório conhecimento de todos, criam buracos ainda maiores ao prorrogar a existência da corrupção, como participantes ou meramente pelo simples fato de se isentarem de real denúncia contra seus pares, o que neste caso se configura como conivência silenciosa, aquela em que o sujeito sabe do desvio de verbas e silencia pois isso “faz parte das regras do jogo”…

Mentir é praxe em política. E não apenas nos palanques, nos quais se anunciam revoluções na gestão que nunca acontecem, a honestidade que não há entre os políticos, o paraíso que se estabeleceu no governo deste ou daquele político e de seu partido, entre outras falsidades apregoadas diariamente pelos quatro cantos do país.

A mentira está impregnada ao cotidiano dos políticos. Depois dos processos eleitorais, nos corredores do legislativo, em que propinas são acertadas as escondidas (ou não), em licitações fraudadas de acordo com as possibilidades da lei, ou seja, sem que ninguém possa contestar pois os valores, apesar de exorbitantes, são menores do que os dos demais concorrentes.

Os valores altos demais acobertam o Caixa 2 dos partidos e dos políticos e as empresas que concorreram e perderam são as mesmas que no próximo contrato serão as vencedoras, num constante vai e vem que drena os caixas de todas elas ao mesmo tempo que subsidia e enriquece os poderosos que as acobertam.

A mentira está na foto da campanha eleitoral tanto quanto naquela que estampa os jornais e mostra a inauguração de obra inacabada, está nos índices ajustados para compor cenário menos desfavorável da economia assim como no abraço de ocasião em crianças carentes ou idosos visitados por políticos em busca de apoio ao seu nome…

Percebe-se que há, em vigor, farsas múltiplas e que, com elas, se esvai a esperança real de que o país possa de fato mudar num futuro próximo ou distante sem que antes disso muito dinheiro tenha sido embolsado por partidos e políticos inescrupulosos.

A ética, que já foi bandeira de todos, depois se tornou de alguns e hoje reside em poucos, consta de fato apenas em dicionários puídos que não são consultados como fonte de saber há algum tempo por estes homens de terno, colarinho branco, majestosos escritórios, equipes de advogados e outros colaboradores que, depois de eleitos, pouco ou nenhum contato passam a ter com seu eleitorado. O povo, depois dos pleitos, torna-se desnecessário e passa ser evitado para que o corpo a corpo não moleste aqueles que vestem Armani, usam sapatos de cromo alemão, relógios suíços e que com o dinheiro público viajam em primeira classe ou em jatos particulares para os quatro cantos do mundo…

Enquanto a mentira for a regra a esperança por um Brasil melhor continuará a existir, mas a disposição das pessoas e a crença real de que o amanhã, de todas as gerações de futuros brasileiros, estará comprometido.

Sinto, realmente, que o país que estamos legando para nossos filhos, netos e bisnetos, está comprometido e não é aquele que deveríamos lhes oferecer, com justiça social, ética, cidadania, prosperidade, sustentabilidade, educação de qualidade, saúde para todos…

Quando vejo entre tantos a desesperança que os leva a pensar que o melhor caminho é o aeroporto e o recomeço em outra nação, onde a mentira e a política não tenham um enlace tão íntimo quanto o que se vê hoje no Brasil, percebo que o fundo do poço já chegou e não nos demos conta.

O que fazer?

Fomos as ruas em 2013. Vamos as urnas em 2014. Teremos novos governantes em 2015. Teria que ser suficiente, mas nos falta clareza e informação, assim como comprometimento político dos partidos e candidatos com o que realmente precisa o Brasil. Votar com conhecimento de causa já seria um bom princípio de conversa, mas não é o que percebemos estar ocorrendo no país, até por conta da falta de melhor capacitação para o voto consciente, decorrente da educação ruim que o país tem, entre outros problemas que nos impedem de chegar a uma melhor composição de nossas bancadas parlamentares e escolha de líderes do executivo.

Mais do que votar, precisamos atuar, cobrar, fiscalizar, demandar, propor… Não podemos esperar, temos que reclamar e pedir ações efetivas, inclusive e principalmente no combate a corrupção que grassa nossos recursos, esgotando as possibilidades de melhor qualidade de vida para todos. Não vejo outro meio senão a ação do povo e a pressão real sobre as autoridades para que cumpram seu papel, caso contrário num breve período o país terá suas dificuldades, que já são várias e em alto grau, ainda maiores, com piores consequências para todos e para cada um, exceto para os Pinóquios que ocupam os cargos em que os colocamos…

Por João Luís de Almeida Machado

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