Sobre anões e futebol na diplomacia

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A declaração inusitada e desastrada do porta-voz da chancelaria israelense, Yigal Palmor, que chamou o Brasil de “anão diplomático” revela, no mínimo, seu desconhecimento da definição em uso da palavra “diplomacia”.

Diplomacia, segundo consta no dicionário Michaelis é descrita como a “Ciência e arte referentes às relações entre os estados”, também constam registros que a explicam como sendo “relações internacionais por meio de embaixadas ou legações”, “procedimento diplomático; cerimônia, habilidade, tato”, “astúcia no trato de negócios melindrosos” e “circunspeção ou discrição observada na vida particular, à semelhança da que se usa entre diplomatas”.

Ao se utilizar da expressão “anão diplomático” faltou ao porta-voz israelense a discrição ou circunspeção características do trabalho diplomático, não se utilizou nem de ciência tampouco de arte na relação entre estados, atropelaram-se os canais convencionais da diplomacia ao expor via imprensa a insatisfação do estado israelense quanto as posições assumidas internacionalmente pelo Brasil e, é claro, demonstrou-se total falta de tato, habilidade e cerimônia juntamente a nação brasileira e a outras que com ela se alinharam de forma correta numa questão delicada, histórica e explosiva na qual Israel, neste momento, comete erros e sacrifica vidas humanas.

Ao utilizar a expressão “anão diplomático”, Palmor demonstrou também preconceito explícito ao qualificar os anões como sendo, nas entrelinhas de sua fala, atores menores no cenário diplomático internacional. O nanismo é uma condição física estudada pela medicina, atrelada a questões genéticas e que, conforme já se sabe não representa para quem apresenta tal característica nenhum diminutivo para o exercício pleno de suas atividades ou incapacidade no comparativo a outros seres humanos. Politicamente incorreta e discriminatória, portanto, foi a afirmação que, desde já, deve ser repudiada ao afirmar literalmente que os anões não são e nem devem ser percebidos como protagonistas na vida e na diplomacia internacional.

Há, é evidente, arroubos brasileiros na diplomacia, como aquele do assessor de relações internacionais do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia, que chamou de genocídio os ataques israelenses aos palestinos. Exageros à parte, declarações infelizes ou desproporcionais como esta são exceção no que tange a diplomacia brasileira.

O que hoje ocorre na Faixa de Gaza constitui conjunto de ações qualificadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) como verdadeira guerra. O conflito armado com bombardeios e incursões militares em território ocupado por palestinos com a justificação de defesa em relação a atuação do Hamas por parte dos israelenses constitui agressão e violência que atinge civis mais que o próprio grupo contra o qual dizem lutar. Há de se destacar ainda que a desproporção no uso da força pode ser percebida pelo fato de que para cada soldado israelense que morreu no conflito foram perdidas 25 vidas palestinas, sendo que parte delas de crianças, idosos, mulheres, jovens e homens que nada tinham a relacionar suas vidas ao Hamas.

A “diplomacia do porrete” utilizada por Israel neste caso, total contrassenso tendo em vista que a ação diplomática visa justamente evitar que as nações cheguem as vias de fato, ou seja, que se engalfinhem num conflito armado como está ocorrendo agora na região, somente acirra os ânimos, provoca reações nos demais países árabes e potencializa uma guerra em maior escala na já explosiva região do Oriente Médio.

E o Brasil é que é, nas palavras de Yigal Palmor, um “anão diplomático”?

Se não bastasse esta infeliz e despropositada afirmação contra um país em relação ao qual Israel mantém relações diplomática amigáveis, Palmor ainda quis fazer troça em relação ao Brasil ao comparar a derrota por 7×1 diante dos alemães na última Copa do Mundo ao que deve ocorrer no campo diplomático. O porta-voz israelense afirmou que nas relações internacionais o que se busca é o empate, ou seja, o 1×1 ou o 2×2, no qual os interesses em jogo ficam equilibrados sem que um ou outro levem vantagem naquilo que se negocia ou estabelece.

Isso é factível, ou seja, faz sentido no campo diplomático. O que se espera de fato é que nenhum dos países ou blocos de nações envolvidos numa negociação saia no prejuízo. No entanto, ao fazê-lo de forma a tentar ironizar ou ridicularizar o Brasil quanto a resultados recentes no campo esportivo, ainda mais no futebol, esporte mais popular entre os brasileiros, no qual contam tantas conquistas, Palmor demonstrou o quanto é despreparado para a função que ocupa.

E também o quanto despreza ou desconhece a história deste esporte e dos feitos do Brasil nestes campos. O único país que participou de todas as Copas do Mundo e que a conquistou 5 vezes, ainda que ferido por derrota acachapante diante de outro grande campeão no futebol, a Alemanha, não tem como ser comparado as conquistas de Israel no futebol mundial. Pelo que consta os israelenses nunca participaram sequer de uma única Copa do Mundo, ou seja, nem ao menos tiveram a oportunidade de disputar sequer as partidas da fase inicial do mais importante torneio mundial de futebol…

Para completar a conversa, vale lembrar que a resposta brasileira a esta afirmação demonstra o quanto temos de história na diplomacia mundial, área em que o Brasil se destaca pela luta em prol dos Direitos Humanos, da Liberdade, da Democracia, da Justiça Social e do entendimento entre os povos sempre em prol da paz e prosperidade geral. O chanceler Luiz Alberto Figueiredo, lembrou que o “anão diplomático” Brasil é um dos 11 países que se relacionam com todos os países membros da ONU e que, além disso, “não usa termos que desqualifiquem governos de países amigos”. Tapa com luva de pelica e gol de placa do anão gigante!

Por João Luís de Almeida Machado

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