AS PERNAS CURTAS DA MENTIRA: Uma crônica do mundo do trabalho corporativo

mascaras1

Jaqueline entrou na empresa a partir de várias recomendações. Seu currículo era impecável. Estudara em boas escolas, fizera cursos de pós-graduação e MBA e, acima de tudo, passara por alguns empregos em empresas consolidadas. A se estranhar somente o fato de que ficava sempre por período de tempo relativamente curto, entre 1 e 2 anos, tempo depois do qual saia das companhias e se relocava no mercado de trabalho.

Perguntada sobre esse aspecto nas entrevistas se justificava dizendo que queria alçar novos voos, conhecer outras realidades e, acima de tudo, ter oportunidades melhores, nas quais conseguisse mais reconhecimento.

Assumiu cargo de gerência financeira e logo foi definindo o seu estilo de trabalho, as metas a serem alcançadas, a forma como se relacionava com sua equipe e a visão que tinha para o futuro da companhia.

Não era comum alguém com a idade que ela tinha conseguir uma colocação tão importante na empresa. Seus 31 anos pareciam pouca idade para cargo de tanta responsabilidade, mas o RH e os diretores pareciam muito satisfeitos e convictos da contratação.

Os primeiros meses foram impactantes. Jackie, como gostava de ser chamada, modificou procedimentos, implementou projetos, demonstrou competência e seriedade, ganhou aliados internamente e também seus primeiros desafetos.

Diziam aqueles que gostavam dela que os desafetos eram os acomodados e invejosos de plantão. Era de se estranhar, no entanto, que entre eles estivessem profissionais como o Cláudio, o Mário ou a Joana. Tinham um bom tempo de casa, eram reconhecidamente competentes, geriam seus departamentos de forma profissional, tinham o respeito de suas equipes e, a princípio, nenhum motivo aparente para terem se afastado ou precavido em relação a Jaqueline.

O tempo iria provar que eles tinham razão. Ainda assim, durante um tempo foi neles grudado o rótulo de retrógados e de ciumentos em relação ao sucesso da nova “colega” de trabalho.

Depois de algum tempo comentários começaram a surgir quanto a forma como Jaqueline se referia entre seus comandados em relação aos outros gestores da empresa. Apelidos pejorativos, comentários maldosos e até mesmo pequenas mentiras eram inventadas para denegrir a imagem de Joana, Mário, Cláudio ou mesmo da Ana ou do Paulo.

Mário, que tinha menos de 1, 60 metros de altura era chamado por ela de “anão”. Sobre Joana, que gostava de se maquiar, dizia que todo o blush e batom eram para esconder as rugas e deixa-la menos feia. Cláudio, por sua vez, estava fora de forma, com uma barriga saliente, e por isso era o “gordo” nas palavras da gerente financeira.

Se não bastassem os apelidos maldosos, era comum que ela contasse casos ou situações envolvendo os outros gestores para diminuir-lhes o prestígio profissional e ganhar mais espaço na empresa.

Cláudio, segundo ela dizia para quem lhe desse ouvido, pedia notas mais altas quando consumia serviços e produtos em nome da empresa. Uma mentira deslavada. Homem sério, reto, correto mesmo, daqueles que são incapazes de cometer qualquer injustiça, Cláudio se sentiu ofendido quando ouviu rumores nos corredores sobre esta ilicitude que estaria cometendo. Fez questão de conversar com os diretores e mostrar todos os recibos, contas pagas e de, ainda, colocar a empresa em contato com os fornecedores com os quais havia realizado contas recentemente para que mostrassem seus gastos e como eram condizentes com o que de fato havia consumido, sempre sem exageros ou qualquer irregularidade.

Joana, por sua vez, sabia que as pessoas comentavam sobre sua competência na gestão das compras da empresa. Jaqueline, querendo envenenar o poço, espalhou que ela havia ganho um carro para dar preferência a uma empresa alemã que fornecia máquinas para a indústria têxtil do grupo onde trabalhavam. Era fato que Joana tinha um carro novo, mas essa nova aquisição tinha sido produto de uma economia mês a mês, com depósitos regulares na caderneta de poupança, ao longo de mais de 2 anos de grande disciplina, para que tal aquisição pudesse ser feita. Era a realização de um sonho e custara caro. Naqueles 2 anos Joana e seu marido abriram mão de viagem de férias, reduziram custos com restaurantes e passeavam sempre por perto para gastar menos.

Jaqueline também atirava em Mário. Dizia que ele quando visitava clientes o fazia com o intuito de ir passear, ou seja, que ia as cidades atendidas pela empresa e não trabalhava de fato. Usava as viagens para ficar em hotéis, comer em bons restaurantes, viajar de avião ou ter a sua disposição carros alugados ou táxis. O que ela não sabia é que os fornecedores atestavam para o dono da empresa o quanto Mário era responsável e devotado aos interesses de seus clientes e o quanto elevava o nome dos produtos e serviços oferecidos pela holding. Mário viajava de madrugada, por vezes no final de semana, estava sempre em dia com os relatórios e ficava nas cidades visitadas apenas o tempo suficiente para fechar negócios ou novas vendas. Mal dava tempo de ver as cidades tanto que nas férias era comum querer voltar lá para visitar, de fato, com a esposa e com os filhos e conhecer o que tais locais tinham para oferecer.

O certo era que estavam sendo alvo de campanhas difamatórias pela gerente financeira recém-contratada. Descobriram isso e, ao assim fazê-lo, perceberam os motivos pelos quais Jaqueline tinha vida curta nas empresas pelas quais passara.

Era ambiciosa. Queria subir rápido nas empresas. Não tinha escrúpulos. Caráter lhe faltava. Sacrificar o mérito alheio era para ela um atalho rumo a cargos melhores e salários maiores. O problema é que mesmo em suas equipes acabava cometendo um erro fatal. Sua língua ferina acabava por vezes atacando pessoas próximas e as notícias vazavam.

Como mentira tem perna curta, depois de algum tempo, Jaqueline perdia o emprego e tinha que começar tudo de novo. Ao invés de aprender, no entanto, continuava usando os mesmos expedientes baixos e suas chances iam para o ralo.

Na nossa empresa ocorreu o mesmo, ou seja, pouco depois de completar um ano de casa foi chamada pela Ana que lhe dispensou. Perceberam a tempo o quanto ela era nociva para o ambiente da empresa e ela foi demitida. Começava um novo ciclo para a empresa com a chegada do Antônio, novo gerente financeiro, homem sério e responsável, que acima de tudo, prezava o bom relacionamento na firma. Para Jaqueline restou bater em novas portas e, pelo que ficamos sabendo, a alta rotatividade começou a lhe prejudicar, ou melhor, suas práticas nocivas fizeram dela sua maior vítima!

Por João Luís de Almeida Machado

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s