O que é isso, companheiro? (De Bruno Barreto, Brasil/1997)

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Baseado em livro homônimo de Fernando Gabeira, o filme nos desloca para os anos de chumbo da ditadura militar brasileira (1964-1984) e nos coloca no meio de uma das mais ousadas ações empreendidas por grupos oposicionistas daquela época. Distanciados dos Atos Institucionais (dentre os quais o notório AI-5) e da censura rigorosa que vigoravam então, os jovens da geração atual não conseguem entender a atmosfera pesada que se instalou em nosso país.
 
Vivendo, atualmente, uma etapa de consolidação das instituições democráticas, com o Brasil sendo saudado no exterior como exemplo mundial no que se refere ao desdobramento de nossos pleitos eleitorais e tendo referendado através do voto popular mais um presidente da república, o ar nefasto dos porões que fizeram desaparecer muitos oposicionistas e a violência brutal com que os torturadores do DOI-CODI e da OBAN (Operação Bandeirantes) obtinham suas confissões parecem história tão antiga quanto a República Velha ou o Período Imperial.
 
Essas páginas de nossa história não podem permanecer no esquecimento, sendo relegadas a uma programação anual que as coloca no apagar das luzes dos cursos de Ensino Fundamental e Médio, num período em que os alunos e os professores (o final do ano) já estão cansados e o rendimento acusa quedas consideráveis de rendimento. A manutenção e a continuidade do processo democrático dependem de uma consciência e de uma esclarecimento políticos que só podem ser atingidos a partir do momento em que conhecemos nossa história.
 
Discutir o golpe militar de 1964 e seus desdobramentos é parte essencial desse exercício de democracia que temos vivido. Não para alimentarmos revanchismos ou para acharmos culpados que tenham que necessariamente sofrer punições, em absoluto, o que se espera é que, o sangue vertido, a mordaça colocada nas bocas de tantas pessoas, o exílio a que muitos foram submetidos, o absolutismo político que imperou no país durante aquele tempo e tantas outras arbitrariedades, não possam, jamais, voltar a imperar em nossas terras.
 
“O que é isso, companheiro” é um recurso de grande estima para a retomada desses acontecimentos e temas. Vale começar por este filme!
 
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O Filme
[Assista o trailer oficial do filme em https://www.youtube.com/watch?v=AhLw9xwFs4Q
 
O filme nos conta a história do envolvimento de alguns jovens brasileiros, entre os quais Fernando Gabeira, na luta armada contra o regime militar. Para isso, são treinados, adotam novos nomes, assaltam um banco para conseguir recursos que financiem suas atividades e vivem escondidos, em seus “aparelhos” (termo pelo qual se referem aos apartamentos, casas ou chácaras em que se escondem das autoridades).
 
Atentos ao fato de que a rigorosa censura imposta ao país pelos governantes não permite que eles estabeleçam canais de comunicação com o grande público (o qual pretendem atingir para conseguirem causar comoção, novos aliados para sua causa, o favorecimento da opinião pública ou ainda esclarecimento da massa), Marcão (Luís Fernando Guimarães), Maria (Fernanda Torres), Fernando (Pedro Cardoso), Clara (Cláudia Abreu) e seus companheiros decidem partir para uma ação bombástica, que teria enorme repercussão, o sequestro do embaixador dos Estados Unidos.
 
Auxiliados por Toledo (Nelson Dantas) e Jonas (Matheus Natchergaele), dois experientes oposicionistas vindos de um grupo de São Paulo, o grupo consegue capturar Charles Elbrick (Alan Arkin) e mantê-lo em cativeiro durante algum tempo. Furam o bloqueio imposto pela censura e iniciam negociações para poder libertá-lo em troca de prisioneiros do sistema.
 
Para Refletir
 
1- Apesar de, à princípio, o filme parecer destinado ao curso de história, a menção a temas de alcance geral como liberdade de expressão, democracia, luta armada, idealismo ou censura (entre outros), abrem grandes possibilidades de trabalhar com códigos e linguagens (literatura, artes, redação ou português) e também com ética, filosofia, política e geopolítica.
 
2- A discussão sobre a intolerância e as proibições impostas durante a ditadura militar pode estimular uma análise sobre o hoje, sobre a forma como o processo político brasileiro se encontra na atualidade. Paralelamente a isso, podem ser feitas pesquisas que nos esclareçam se, fora do campo político, existem outros setores que estabelecem restrições ou censuras e, de que forma isso acontece.
 
3- O idealismo que move os personagens do filme parece característica fora de época no Brasil atual. Analisar o engajamento político daquela época e o descaso e descrédito de muitos brasileiros com instituições partidárias e suas pregações pode constituir tema interessante para muitas aulas. Será que a participação dos jovens em instituições e grupos do terceiro setor (ONGs) não constitui uma alternativa ao engajamento político?
 
4- A busca de artigos disponibilizados por revistas e jornais falando sobre o filme e, também, sobre o sequestro do embaixador americano, além da leitura do livro de Fernando Gabeira, podem gerar comparações entre o que foi apresentado nas telas e o que foi escrito pelos jornalistas e por participantes do sequestro (a revista superinteressante, por exemplo, publicou um artigo sobre o caso).
 
Obs.: Para reforçar o estudo sobre o regime militar, vale conferir o filme “Pra frente Brasil”, de Roberto Farias.
 
Por João Luís de Almeida Machado

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