As melhores coisas do mundo (Brasil, 2010)

ImageAs dores e amores da transformação de quem sai do casulo, deixa de ser lagarta e ganha brilho e asas no filme de Laís Bodansky sobre a adolescência. Ser adolescente não é fácil. A transição é parada das mais duras. Deixamos para trás a infância, na qual relacionar-se com os outros e o mundo parece tão fácil e nos aventuramos numa nova parada na qual nem todo mundo está disposto a ouvir, participar, aceitar, entender… 

Hormônios em ebulição. Corpo em transformação. Voz mudando. Sexualidade aflorando. Preguiça que não tem fim. Vontade de dormir muito. Rebeldia contra tudo e todos sem nem ao menos saber ao certo por que. Hora de falar mais alto, de conquistar território, de se aproximar do sexo oposto com segundas intenções (e terceiras, quartas, quintas…). Drogas começam a aparecer por todos os lados. Sejam as lícitas ou as ilícitas, não está difícil não. Neste momento, embalados pela galera, muitos esquecem (ou se lembram e ignoram) os conselhos dos pais e caem no batidão. 

As festas regadas a cerveja, vinho e outros líquidos não tão conhecidos assim são os locais onde além das drogas, rolam os amassos – dos mais singelos aos profundamente íntimos. Nem todo mundo entra nessa, há os caretas, tão antigos quanto a humanidade, que querem se preservar e esperar um amanhã mais maduro Mas que há tudo acontece, não tenha dúvidas, isso é certo. Assim como também são comuns os esbarrões, a turma do deixa disso, alguns pegas ocasionais em que desavenças várias, das fúteis as que têm algum sentido (se é que briga tem, em algum momento, explicação ou razão que a justifique). 

Essa é uma época em que os pais perderam o trem da história mesmo. Deixaram de entender seus filhos e ao invés daquele carinho, do diálogo e da presença amiga, o que acontece mesmo são discussões, desentendimentos, incompreensão. Adolescente que se preza se sente sempre o mais incompreendido do mundo. Ninguém me entende, ninguém me quer… Às vezes um professor ou um amigo mais velho, daqueles que a gente admira, pode até ser um irmão, aconchega, ajuda, entende. E isso facilita muito a vida. Especialmente quando aquela gata (ou gato, no caso das meninas), nem sabe que você existe. E os beijos, abraços e todas aquelas outras intimidades com que se sonha nesta época são apenas platônicos, nunca chegam, jamais acontecem… 

Mas há sempre os rolinhos, aquelas companhias que ficam com a gente, com quem rolam uns beijos e amassos mais calientes. Duro é quanto acontece com alguém que é muito amiga(o). Daí confunde a cabeça da gente, ficamos sem saber ao certo o limite entre amizade e amor. Desanda tanto um lado quanto o outro. E se o papo é sexualidade, mais confusões surgem quando se fala em gostar de alguém igual… do mesmo sexo. Ninguém entende, todo mundo tem preconceito, rola até paulada. 

E a vontade de salvar o mundo então. Apesar da letargia que por vezes afeta nosso corpo, parece que a revolução começa dentro do peito e da cabeça de cada um de nós. Queremos realmente incendiar o mundo, sanear de todas as coisas ruins que vemos nos jornais, salvar a pele de tantos e quantos for possível. Esta é a nossa sina, ao menos nessa época de nossas vidas, nos sentimos capazes, poderosos, invencíveis!  

E é por conta disso tudo, das dores e decepções, das vitórias e alegrias, depois que tudo passa, quando ficamos mais velhos e mais maduros, quando olhamos para trás é que percebemos que vivemos realmente “As Melhores Coisas do Mundo”. 

Obs. Este texto é uma resenha do filme “As Melhores Coisas do Mundo”, outra pérola da cineasta paulistana Laís Bodansky, que já havia nos brindado com “Bicho de Sete Cabeças” (2001) e “Chega de Saudade” (2008). Escrevi como se fosse uma carta, trazendo as memórias de um adolescente, ainda recentes e frescas, para dar bem o clima da produção. Um filme que já nasce clássico por sua narrativa, roteiro, temática e interpretações de primeira. E que nas escolas pode e deve suscitar trabalhos e projetos que busquem, por exemplo, trabalhar a questão da evolução e/ou diferença da linguagem do jovem (suas gírias, a evolução destes termos em diferentes períodos, a necessidade de se expressar num linguajar próprio…); estudos sobre as diferentes tribos que existem entre os jovens hoje e que existiram no passado (quais são os interesses? O que os leva a formar tais grupos? Porque existem conflitos e embates?); pesquisas sobre as mudanças que acontecem no corpo dos adolescentes e como isso influencia o seu viver; as questões sobre relacionamentos entre eles e também com outros personagens de sua vida, como os pais e os professores; temas espinhosos como drogas, sexualidade, gravidez precoce, alcoolismo, a necessidade de estar de acordo com os parâmetros da moda e de astros da televisão ou do cinema… Há, certamente, uma quantidade considerável de temas a serem trabalhados e que podem repercutir tanto em ciências humanas, como a sociologia ou a história, quanto em códigos e linguagens, com a produção textual e leitura e as biológicas ou ciências da natureza, com os estudos sobre o corpo humano e acerca das drogas… Além disso, é sempre possível fazer trabalhos de conscientização e esclarecimento junto aos alunos e a seus familiares e criar pontes que os levem a leituras de títulos relacionados ou a assistir filmes afins (como, por exemplo, “Juno” e “Sociedade dos Poetas Mortos”). 

 Por João Luís de Almeida Machado

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