Autoridade e Autoritarismo em questão

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Apresento a seguir a entrevista que concedi para o site da TV Canção Nova sobre Autoridade e Autoritarismo na relação familiar e na escola. Este depoimento foi concedido ao repórter Leonardo Meira, sob o título Educar os filhos com autoridade e não autoritarismo e disponibilizada como artigo em junho de 2011.
 
1 – Qual é a diferença conceitual entre autoridade e autoritarismo?
 
JL – Ter autoridade significa desfrutar de alguma forma de comando ou poder sobre outras pessoas. Esta autoridade normalmente está associada, por exemplo, a hierarquia que se estabelece no ambiente de trabalho. O chefe ou patrão que tem, em relação aos seus subordinados, a voz de comando, o poder de lhes orientar e organizar. No ambiente doméstico também se exerce a autoridade, relacionada ao respeito e consideração aos pais por parte de seus filhos, ligada aos laços sanguíneos, ao fato de que os pais, além de progenitores, se responsabilizam durante toda a infância e adolescência pela formação, valores, educação e preparação para o contato com o mundo externo, além dos sentimentos fortes que os unem. Na escola se repete a situação de hierarquia, respeito, autoridade que se estabelece na relação entre professores e alunos. Neste caso há um fio condutor a indicar o caminho, a educação formal, os valores sociais, a ética e a cidadania que incluem-se entre os ensinamentos trazidos pelos educadores, além de todos os demais conteúdos previstos no currículo. O conhecimento e a sabedoria devem organizar e orientar esta relação de autoridade dentro das salas de aula, tudo sempre pautado no respeito mútuo. Por outro lado, é claro que estas situações, em qualquer das instâncias mencionadas, seja no trabalho, em casa ou na escola, infelizmente pode descambar para o autoritarismo. Esta circunstância é aquela do exagero, do uso desproporcional de força, do fim do diálogo, da intimidação ou mesmo da humilhação. É quando a pessoa munida da autoridade extrapola suas atribuições e no grito, na violência, na coerção ou de maneiras viris e não pelo diálogo, debate, argumentação e respeito tenta conseguir o que quer de seus subordinados.
 
2 – No que diz respeito à educação dos filhos, quais são os pontos básicos que os pais devem trabalhar para mostrarem que eles são a autoridade? Ao mesmo tempo, quais são as principais atitudes que devem ser evitadas para que os pais não caiam no autoritarismo?
 
JL – Em casa deve sempre prevalecer o diálogo como principal forma de mediação dos inevitáveis conflitos ou diferenças de opinião. Os pais educam pelo exemplo, sendo assim, esta forma de relação começa já entre o casal. O respeito mútuo assumido de forma honesta e franca diante dos filhos, com os pais assumindo suas diferenças pessoais mas sempre optando pelo diálogo como forma de resolvê-las é, desde o princípio, a forma primordial de estabelecer para as crianças e adolescentes da casa que é deste modo que se superam divergências. É certo que no diálogo há variáveis quanto ao tom assumido a conduzir a maior ou menor ênfase que se pretende quanto aos assuntos em discussão. A gravidade das situações irá ocasionar momentos em que a conversa tende a ser mais tensa ou dura. Não se pode perder de vista, no entanto, que por mais sério e grave que seja o caso, as pessoas envolvidas nesta discussão são pais e filhos e que, sendo assim, em nenhum caso deve haver violência ou imposição, autoritarismo. Até mesmo porque é de conhecimento geral que atitudes autoritárias e violentas desencadeiam situações ainda piores, de confrontação e de transgressão ainda maiores. Proibir, punir ou limitar ações dos filhos, por exemplo, só tem sentido se a situação como um todo for explicada de forma clara a eles para que entendam os motivos destas sanções impostas. Esta é outra característica essencial do diálogo que deve prevalecer, a clareza das informações, o direito dos filhos se manifestarem, de apresentarem o seu lado, de se defenderem.
 
3 – De que forma cada uma das atitudes, quando assumidas pelos pais, reflete de modo distinto sobre as crianças?
 
JL – Se na família prevalece o diálogo e a autoridade é percebida de forma natural pelas crianças, com os pais tendo diante dos filhos o reconhecimento de que estes têm na relação o papel primordial de condutores legítimos, preparados e sábios, os mesmos instrumentos serão percebidos como caminhos a serem utilizados em suas outras relações, fora do âmbito familiar, ou seja, para estes filhos a compreensão e o entendimento entre as pessoas surgirá igualmente com o uso do diálogo. Neste sentido, reitero a necessidade de que a argumentação deve ser sempre bem feita, clara e evidenciar a situação, os motivos da conversa, as questões em pauta, os problemas discutidos e as alternativas de solução. Se, por outro lado, a família é local de embates frequentes, onde mais se grita do que se conversa, com portas batendo, murros na mesa ou agressões físicas e verbais, é claro que isso irá repercutir entre os filhos e levá-los, na maioria dos casos, a agir de forma igualmente agressiva, repressora e autoritária em outros espaços e situações de suas vidas. Esta tônica infeliz, de agressões e autoritarismo poderá, inclusive, levar a deterioração dos laços familiares e ao afastamento dos membros da família.
 
4 – Como os pais podem equilibrar as funções de guias e imposição de limites com aquelas outras de permitir que os filhos sejam livres e façam suas próprias escolhas?
 
JL – Os pais têm grande responsabilidade em relação aos filhos quanto ao que serão enquanto futuros cidadãos, pais de família, trabalhadores… Arcar com os custos é um fardo considerado grandioso pelos progenitores mas não é o maior deles. Criar pessoas íntegras, honestas, capazes de se relacionar com o mundo, de respeitar as pessoas, de lutar por mais justiça e dignidade, de defender o diálogo e a democracia são tarefas muito mais difíceis e árduas que tem na família a mola mestra. É certo que a escola, a religião e outros fatores e segmentos auxiliam muito na construção destes valores, ética e da cidadania. E, neste caminho, os limites a serem impostos pelos pais também são norteadores daquilo que é a vida fora de casa. Respeitar a lei, as normas e os valores dominantes na sociedade aprende-se desde o ambiente doméstico, com a família, a partir dos exemplos do cotidiano. Por exemplo, se os pais estacionam em vagas para idosos ou deficientes, desrespeitando de forma flagrante a lei, e se seus filhos são testemunhas deste fato, mais de uma vez, aos olhos deles isto pode passar a ser visto muitas vezes como aceitável. Se os pais furam fila, dão propina ao guarda que vai multá-los por excesso de velocidade ou ultrapassagem proibida, isto vai ser visto como a ação a ser realizada por estas crianças… Fazer a coisa certa, reconhecer os erros, mostrar pelos exemplos como a vida deve ser vivida são canais poderosíssimos para que as novas gerações escolham os caminhos certos em suas vidas, hoje e no futuro.
 
5 – Como fazer com que a autoridade provenha da postura, e não do “grito”?
 
JL – A postura é fruto de uma construção permanente para qualquer pessoa. Depende de disciplina, de força de vontade, da crença nos valores que norteiam sua ação. Se a postura é firme, presente e continuada, com o sujeito sendo capaz de se mostrar forte o suficiente para levar adiante este caminho ainda que muitas vezes queiram fazer com que ele se desvie, isto causará repercussões entre aqueles com os quais convive. Ao escolher o diálogo, a autoridade legitimada pelo entendimento, pela compreensão, os pais devem ser muito perseverantes em sua opção ainda que por vezes as provações trazidas pelos filhos os levem a pensar em tomar outros caminhos ou providências, como por exemplo, gritar, espernear, ganhar na força, no braço a discussão.
 
6 – De que maneira os pais podem recuperar a autoridade em lares nos quais tudo já está caótico e as relações são desrespeitosas?
 
JL – Algumas pessoas advogam que devemos zerar as relações, ou seja, recomeçar mesmo. Pode ser uma boa alternativa este recomeço, mas dependerá muito das pessoas acreditarem que é sério o que se propõe. As cicatrizes e dores permanecem e qualquer recaída pode ser fatal. É como a pessoa viciada. Inicia um tratamento para se curar do alcoolismo ou do uso de drogas ilícitas mas a qualquer momento, num descuido pequeno que seja, pode perder novamente a batalha e toda a guerra que iniciara contra seu vício. Por isso mesmo, é preciso consciência, que se estabeleça um acordo coletivo, que as pessoas queiram muito, que elas percebam que além das diferenças, entre elas deve prevalecer o amor e os fortes sentimentos que as unem. É possível sim, superar qualquer diferença quando o que de fato une as pessoas é um sentimento como o amor.

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