Questionadores

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Sempre tive em alta conta os alunos questionadores durante estes mais de 25 anos de caminhos e realizações profissionais em educação (Comecei cedo, com 16 anos já dava aulas de inglês!). São aqueles que estão sintonizados e, a qualquer momento são capazes de fazer uma daquelas perguntas complicadas, que ensejam reflexão e promovem até mesmo debates envolvendo mais pessoas do grupo. É claro que para eles, esta participação tem como recompensa principal o conhecimento em seu mais alto grau, aquele que é fruto não apenas de um contato ligeiro com algum dado ou informação, mas sim o que é burilado, trabalhado a exaustão, buscado com vontade de quem está atrás, literalmente, de um tesouro valioso.
Alguns professores certamente podem relatar histórias e mais histórias de momentos mágicos, difíceis e envolventes de suas aulas nas quais tiveram a oportunidade de contar com algum destes questionadores. É também certo que muitos deles irão se lembrar de nomes e rostos destes alunos brilhantes, que posteriormente continuaram suas jornadas a iluminar outras salas de aula, a não ser que tenham sido podados em algum momento de sua trajetória.
Creio que muitos professores devem ter passado por momentos reais de “saia justa”, ou seja, nos quais os questionamentos foram tão além daquilo que estava programado para a aula que os obrigou a dizer aos alunos que iriam buscar mais informações, pesquisar, ler, estudar… Eu, como tantos colegas, já tive que fazer isto e não tenho vergonha de afirmar em alto e bom tom que foi positivo, pois com isto pude aumentar o meu cabedal de conhecimentos, expandir os horizontes, ir além nos referenciais…
Agora, que o sistema por si só não é muito afeito aos questionadores em sala de aula ou mesmo no mundo lá fora isto é também verdade. Questionar não é o verbo mais popular do mundo em que vivemos. Talvez aceitar, escutar, comprar, vender ou se submeter estejam sempre mais em voga, dependendo da circunstância, da situação, do momento ou do contexto. Por isso a escola não desenvolve tanto esta habilidade ou competência. Além do mais, para sermos bons questionadores temos que desenvolver não apenas a capacidade de manifestar publicamente nossas idéias, com poder de argumentação e sedução suficientes para convencer os outros, mas devemos principalmente ser capazes de ouvir, antes de qualquer ação de questionamento…
Grandes questionadores foram queimados na fogueira, como Giordano Bruno e Joana D’Arc, por exemplo. Perseguidos e obrigados a se retratar, caso notório de Galileu Galilei. São em algum momento de suas vidas deixados de lado, por não comungarem das idéias gerais que regulam a vida e o mundo ao nosso redor, sendo por isso mortos ou crucificados, vide os exemplos de Jesus Cristo, Luther King ou Gandhi. Dá trabalho e requer coragem assumir postura de questionamento… Além disso, é imprescindível disposição para estudar, aprender, aprofundar-se, conhecer pessoas, viajar pelo mundo, apreciar a arte…
Talvez seja pretensão, sonho, utopia pensar que as escolas deviam se esmerar mais no sentido da formação de livres-pensadores, capazes de articular-se ao mesmo tempo em que ouvem, aprendem e respeitam o pensamento alheio, configurando um eterno espaço de debates, crescimento, construção e consecução de um amanhã melhor. Mas, como dizem algumas pessoas muito práticas e realistas que conheço e que me conhecem, talvez eu seja apenas um grande idealista, sonhador e questionador da ordem…
Por João Luís de Almeida Machado

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