Arrogância

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Recebi o currículo da candidata a vaga para um setor estratégico da empresa e logo me chamou a atenção. Apesar de jovem, a moça era fluente em inglês e espanhol, tinha concluído o curso de administração de empresas em uma conceituada universidade, passara por duas empresas reconhecidas no mercado por seus produtos e serviços, conhecia os softwares e o trabalho com redes intranet utilizadas por nossa companhia e, certamente, com tudo isso, estava na frente de todos os demais na concorrência por aquela posição.
 
o emprego em questão, na área executiva, tinha um bom salário, compatível com as melhores empresas do mercado, além de todos os outros benefícios. Como era praxe agora, o pessoal do departamento pessoal dera uma olhada em seus perfis em redes sociais e constatara que nada de anormal surgira, ou seja, nenhuma ligação com comunidades excêntricas ou fotos extravagantes, dando a entender que se tratava de uma pessoa que realmente tinha boas possibilidades para preencher a vaga. Só acharam estranho ela ter tão poucos amigos no Facebook e no Orkut. Pensaram que isso talvez fosse resultado de muito empenho no trabalho e pouco tempo para estabelecer relações pelos canais virtuais…
 
Quando a moça chegou para a entrevista, sem que soubesse, entramos no elevador ao mesmo tempo. Percebi de imediato que ela tinha tratado o porteiro, seu Joaquim, com um certo descaso, olhando para ele com o nariz empinado. Achei que talvez fosse aquele nervoso que dá antes de um compromisso dessa natureza. Não me identifiquei, para não atrapalhar sua concentração e, também, para que pudesse observá-la fora do contexto da entrevista.
 
Chegamos juntos a portaria da empresa, no 15º andar. Enquanto eu cumprimentava a Neide, nossa recepcionista, a jovem se dirigia para ela sem se preocupar em ser simpática, imaginando que aquela moça que trabalhava conosco há uns 5 anos, por ser funcionária da recepção, pouco ou nada representaria para ela, executiva graduada, prestes a conseguir um emprego importante. Com palavras furtivas, sem olhar nos olhos da recepcionista, um tanto quanto gélida, se identificou e perguntou sobre a entrevista, onde se realizaria, se já estava para ser chamada.
 
Neide lhe disse que em alguns minutos isso aconteceria, foi cortez, lhe ofereceu um café ou uma água e indicou-lhe um sofá onde poderia aguardar. Procurei afastar de minha mente a idéia de que aquela moça, tão bem formada, bilígue, pudesse ser arrogante, mas naquele momento comecei a ficar preocupado pra valer. Duas situações seguidas, com pessoas simples… Podia ser só o nervosismo, a tensão, pensei mais uma vez…
 
Fui para a sala de entrevistas e estava me organizando quando ligaram e me perguntaram se a candidata, cujo nome era Márcia, podia se encaminhar. Disse a Neide que sim e fiquei aguardando, a observar pelas portas de vidro enquanto ela se punha na direção daquele ambiente. Vi quando ela passou pelo Paulinho, nosso office-boy, literalmente “pau para toda obra”, rumo aos bancos e simplesmente ignorou a presença do garoto. Nem um bom dia lhe dirigiu…
 
Quando ao seu lado passou o Mauro, jovem executivo ascendente, bem vestido com um terno feito num alfaiate local, gravata de seda, sapatos italianos e um moderníssimo celular na mão, a moça se denunciou, não só lhe cumprimentou como, ainda, elogiou sua elegância. Aquela mulher distante, de nariz empinado e aparente empáfia deixou de ser de gelo e se tornou simpática… Como? Que transformação era aquela?
 
Deu mais uns passos e entrou na sala em que eu estava. Esbanjava elegância, mostrava-se solícita, queria ser simpática comigo, sem afetações e exageros, mas tentava impressionar, tanto no lado profissional quanto na educação. Depois de responder algumas perguntas iniciais, perguntei a ela se queria um café. Como aceitou, faria ali meu teste final, para decidir se ela teria ou não chance de ficar com a vaga. Esperei a nossa ajudante de cozinha, a Maria, chegar com a bandeja e lhe pedi que deixasse na mesa, bem ao lado da candidata a vaga. Notei que ela desconsiderou a presença da humilde funcionária da cozinha. Não lhe disse nada e nem olhou para ela. 
 
E olhe que eu falara com a nossa funcionária e Maria, por sua vez, havia cumprimentado aos dois presentes na sala, dirigindo-se a cada um de nós. Esperei para ver se ela tinha iniciativa, de se servir e de me oferecer café, tendo em vista que as xícaras ficaram bem ao seu lado e nada… Passaram-se alguns minutos e, então, me levantei e servi o café. Certamente esta função era tão simples que não cabia a ela executá-la. Quando lhe disse que a entrevista terminara e que entraríamos em contato posteriormente para dizer-lhe se fora ou não aprovada para a vaga, ela me perguntou se a decisão cabia somente a mim, se era minha incumbência, se eu era o chefe do departamento pessoal. Disse-lhe que não, que era um colaborador do setor e que as decisões eram realizadas pelo diretor, logo acima de mim na hierarquia.
 
Ao notar que a decisão não era minha, mudou o tratamento, tornando-se mais distante e fria, me olhando como se eu fosse, a partir desse momento, somente um serviçal, mesmo ciente de que meu depoimento e anotações da entrevista seriam passados para alguém de maior poder. Foi nesse momento que percebi que, por trás daquele belo currículo estava alguém arrogante… Ela havia se denunciado várias vezes e, ao longo de suas pequenas ações, percebi que o jovem que entrevistara na véspera, mesmo com um histórico de vida profissional não tão impressionante, seria muito mais efetivo para os interesses da firma…
 
Obs. Conto essa história de olho em pessoas que conheço, talentosas e de grande potencial, que apesar disso, tratam os demais sem consideração e respeito, demonstrando empáfia e orgulho exagerados, imaginando-se melhores que as outras pessoas. Costumo dizer a meus alunos que educação, humildade (com altivez, sem ser submisso) e respeito, abrem portas. Por outro lado, arrogância, empáfia e orgulho exacerbado atrapalham muito a vida de alguém…
 
Por João Luís de Almeida Machado 

6 thoughts on “Arrogância

  1. Com efeito João Luis entendo você e concordo.
    Como professor compartilho com meus alunos esta “competência” de ser educado.
    Lembro a eles que ser sofisticado não significa ser esnobe, ser elegante não significa vestir roupa bacana, ter poder não significa ser melhor do que ninguém, apenas talvez mais responsável.
    Sofisticados e elegantes são as pessoas que sabem tratar com a mesma deferência a pessoa mais humilde como trata a pessoa mais poderosa em seu relacionamento. O que têm em comum? SÃO PESSOAS.

    1. Excelente história do João Luís de Almeida Machado e sublime análise do JOAO WAGNER GALUZIO ! No meu curso de engenharia civil, o professor Kokei Uehara ensinou numa aula sobre investimentos sociais em obras públicas e fome, as atitudes de educação e respeito às PESSOAS, idêntico ao que João W. Galuzio escreveu.

  2. Considero essa reflexão importantíssima. Creio se tratarem de valores pelos quais a empresa zela e os quais espera dos funcionários, estejam eles em qualquer posição hierárquica. Sempre carreguei a máxima de que as pessoas mais arrogantes são as que menos sabem sobre a vida, sobre as relações. Elas precisam ser tecnicamente exímias – como a tal mocinha da história – para minimamente sobreviver no ramo corporativo. Mas sabemos bem que as pessoas são contratadas por sua capacidade técnica e desligadas por seu comportamento, não é mesmo? Levo comigo a máxima de que as pessoas mais inteligentes são as mais acessíveis! Porque elas não têm medo de conversar com qualquer pessoa, seja o presidente, seja o faxineiro. E simplesmente porque sempre pode aprender com qualquer um dos dois, em diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto.

  3. Bem essa humildade e carisma creio que não seja um atributo aprendido, é algo genuíno e da essencia da pessoa. Bons conselhos de comportamento com o semelhante obviamente são bem vindos, mas se esse jeito de ser não pertencer a pessoa e não houver uma transformação interna, não passará de um comportamento plástico e artificial. Ter um excelente curriculum e esse atributo baseado no respeito ao próximo, é valoroso para qualquer carreira.

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