Amor sem escalas

ImageNão se iluda. O título deste filme pode enganá-lo parcialmente. A princípio pode-se pensar tratar-se apenas de mais uma comédia romântica despretensiosa. Ainda mais em se considerando que é estrelado pelo astro George Clooney. Na realidade o filme, indicado a vários prêmios no Oscar, Globo de Ouro e Bafta (a maior premiação do cinema na Inglaterra), é uma comédia romântica mais ambiciosa que consegue mesclar este gênero a uma consistente crítica social.

Aliás, esta tem sido uma marca constante na carreira de Clooney, que alterna filmes comerciais de sucesso com produções de cunho político, trazendo a tona questões sociais americanas ou tensões internacionais, roteirizadas de forma inteligente, como foram os casos de “Syriana” (2005), “Boa Noite, Boa Sorte” (2005) ou “Tudo pelo poder”(2011).

Em “Amor sem escalas”, do diretor Jason Reitman, Clooney é Ryan Bingham, cujo trabalho lhe permite viajar durante a maior parte do ano, de uma costa a outra do país, acumulando milhas e hospedando-se em ótimos hotéis. Um sonho de trabalho para muitas pessoas que deixa de estar nesta categoria logo que sabemos que sua ocupação diária é demitir pessoas…

Ele vai de empresa em empresa, dentro de um contexto de crise global que desde 2008 afeta os Estados Unidos e vários países, inclusive a rica Europa Ocidental, cumprindo a ingratíssima missão de comunicar aos funcionários de tais companhias que foram demitidos. Vivencia então todo o tipo de reação possível e imaginável de seus interlocutores, do desespero e indignação a passividade e agressividade.Image

Como um dos melhores consultores de sua empresa neste segmento, Bingham (Clooney) é também palestrante especializado no assunto. Sua vida começa a mudar, no entanto, quando uma jovem executiva de grande talento é recrutada para trabalhar em sua empresa e pretende transformar as operações do setor ao inserir as tecnologias como recursos através dos quais se concretizem as demissões.

Com isso pretende diminuir consideravelmente os custos operacionais ao cortar em 85% as despesas com viagens e estadias. O sonho de Bingham, de ser uma das poucas pessoas no mundo a atingir o expressivo número de 10 milhões de milhas acumuladas em viagens aéreas está, portanto, prestes a ruir… E o pior é imaginar que para aprender a função, a jovem executiva Anna Kendrick (Natalie Keener) irá acompanhá-lo em suas próximas viagens para aprender melhor o trabalho e tentar iniciar as ações demissionais dentro do novo modelo, através de videoconferência…

E são questões como o desemprego, a globalização, a crise econômica mundial e a intermediação das tecnologias nas relações humanas que de imediato saltam aos olhos como temáticas diferenciadas inseridas numa comédia romântica. E, diga-se de passagem que, ainda assim, o filme consegue ser uma ótima incursão do diretor Reitman no gênero comédias românticas, ou seja, não há prejuízo para esta proposta original de “Amor sem escalas”.

O filme nos permite, além da diversão, nas entrelinhas realizar uma leitura aproximada daquilo que é manchete nos últimos anos nos principais jornais do mundo, ou seja, perceber a dimensão da crise econômica no contexto globalizado e uma de suas principais repercussões, o desemprego crescente em várias nações, em especial, nas nações mais ricas do planeta.

Se não bastasse isso, ao colocar em xeque a forma como se realizam as tais demissões realizadas pelo personagem de Clooney, vemos aflorar questões da reengenharia empresarial engendrada nas últimas décadas, que “coincidem” com o avanço das operações globais em larga escala.

Reengenharia empresarial que prima pelo corte de custos, enxugamento de despesas, inserção de tecnologias, demissão de pessoal, fechamento de setores ociosos ou de baixo rendimento. E como a resgatar o ludismo que no início do século XIX atribuía as máquinas o crescente desemprego na incipiente industrialização inglesa, neste século XXI as máquinas são igualmente fonte de descontentamento, desconforto e insatisfação. Não seria frio e distante demais demitir pela web ou por videoconferência? Como seria terminar um relacionamento pelo Facebook ou por torpedo?

Questionam-se os meios, os recursos, as relações humanas e, é claro, a própria globalização como acontece, enquanto se realiza. Passamos a pensar o avião em vôo e a possibilidade que temos de trocar o motor ou reabastecer sem possibilidade de assim fazê-lo ao pousar…

Neste sentido, “Amor sem escalas” torna-se uma diversão inteligente, que permite a crítica, a reflexão, a discussão de temáticas atualizadas, sempre em paralelo com o que está sendo discutido em jornais e revistas, em livros, na web e na televisão, tornando o filme um recurso interessante e rico para um trabalho em sala de aula sobre tais questões.

Por João Luís de Almeida Machado

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