Cegueira

ImageDe repente o carro da frente, no meio de um trânsito infernal, bem na hora do rush, fica parado no sinal… Buzinas tentam despertar o insone… Xingamentos vêm de todos os lados… Algumas pessoas que passam ao largo, na calçada, vão em direção ao veículo e, atônitas descobrem que o motorista simplesmente ficou cego…

E não é uma cegueira qualquer. Ao menos não bate com aquilo que todos parecem conhecer. Não é descrita como ausência de luz, escuridão, trevas… Este motorista fala de uma cegueira branca, onde o que predomina é o excesso de luz, com um tom parecido com o do leite… Mas com a impossibilidade da sensação que um cego de nascimento, por exemplo, tem…

Alguém se oferece para levá-lo até sua casa em seu próprio veículo. Uma alma caridosa e preocupada com o próximo… Ao chegar ao destino, larga o deficiente visual recém-surgido no meio da rua e parece arrancar com o carro, como a roubá-lo… Mas não era isto, ele apenas estava estacionando logo a frente… Retorna e pelo braço conduz o enfermo a seu próprio prédio, rumo a seu apartamento – que não mais vê – buscando conforto e segurança no próprio lar.

Ao chegar lá, o visitante desconhecido e aparentemente generoso verifica o que há naquele domicílio que pode ser interessante aos seus olhos e a seu bolso enquanto o cego anda cambaleante, trombando com os objetos, perdido e desprotegido… Estava a mercê de uma suposta boa alma que aproveitou sua súbita enfermidade para tentar lhe roubar alguns pertences em seu próprio apartamento e, ainda, lhe tomou o carro…

Mas a ele foi legada, como aparente doença contagiosa, a cegueira branca e, próximo a uma batida policial, ao largar o carro para não ser apanhado, o ladrão sai correndo e é acometido pela incapacidade de ver… Enquanto isto o motorista vai ao médico e tenta descobrir o que lhe aconteceu a partir de inúmeros exames… O oftalmologista e todos aqueles que ali estavam, em seu consultório, também ficam cegos e inicia-se uma epidemia que leva a população à histeria e os governos a decretar emergência!

Image

A ação imediata dos governantes? Criar uma quarentena e isolar os acometidos de cegueira branca para evitar a propagação da doença. Todos os que tiverem ficado cegos são para lá enviados e, entre eles, apenas a mulher do médico, que acompanha seu marido alegando também estar com o problema, é capaz de enxergar. O isolamento, acompanhado de descaso das autoridades, gera inúmeras dificuldades.

Os cegos se tornam agressivos, lutam pelos víveres reduzidos que a eles são encaminhados, não contam com remédios, são isolados do mundo a não ser por aparelhos de televisão que procuram dar alguns fatos sobre a epidemia, vivem no meio de um ambiente cada vez mais fétido e sujo. A imundície não apenas está nos cantos, nos corpos, nas roupas não lavadas, nos restos de comida… Começa também a transparecer nas ações desesperadas dos homens e mulheres que ali tentam sobreviver… Instala-se um princípio de Barbárie…

“Ensaio sobre a Cegueira” é uma fortíssima alegoria através da qual Fernando Meirelles adaptou, com maestria, a obra de José Saramago, o grande literato português, para as telas. Contando com elenco de primeiríssima, com nomes como Mark Ruffalo, Julianne Moore (excelente atuação), Danny Glover, Gael Garcia Bernal e Alice Braga, o filme choca, machuca, ofende, mas principalmente, toca fundo e procura nos alertar quanto ao mundo que estamos construindo a cada dia…

A principal alegoria reside justamente no fato de que estamos ficando todos cegos mesmo que não estejamos perdendo nossa visão ou qualquer um dos sentidos que possuímos… O que parece cada vez mais longe de nós é a capacidade de sensibilização em relação ao próximo, o que no filme de Meirelles fica muito claro. Sentir a chuva, o toque humano, a lágrima que escorre às escondidas, as mãos que tremem de insegurança ou medo… Quem está atento a isto? Afinal de contas, temos que correr, realizar, produzir e não há tempo para aquelas pessoas que estão ao nosso lado, tão próximas e tão distantes…

Não estamos perdendo os sentidos naturais a nossos corpos, como a visão, a audição, o tato… O que está ficando ao longo do caminho é o sentido da vida, o maior deles, aquele que nos une e aproxima, que nos faz humanos, a capacidade de ser solidário, amigo, irmão… O que nos torna cegos, surdos e mudos é a incapacidade de amar…

Filme forte, denso, político – “Ensaio sobre a Cegueira” é obra a ser vista algumas vezes, principalmente quando nos dermos conta de que a insensibilidade, de algum modo está próxima ou presente em nossas ações… Imperdível!

Por João Luís de Almeida Machado

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s