Biografias não autorizadas: Sim ou Não?

ImageHá duas grandes questões em debate quando o tema das biografias não autorizadas ganha destaque: a liberdade de expressão e a privacidade. Há, também, é claro, a questão da censura, que está nos bastidores e que mobiliza as pessoas no sentido de questionar algumas das celebridades que estão hoje a lutar contra a publicação de livros que tragam a público suas histórias de vida e que nas décadas de 1960 e 1970, durante a vigência da ditadura militar no Brasil, lutaram contra qualquer forma de censura e opressão vigente.

O que surpreende as pessoas é a contradição, ou seja, os libertários de ontem se tornaram os conservadores de hoje que apoiam o “cálice”, ou melhor, o “cale-se” aos autores de biografias que desvelam suas vidas…

Li a biografia de Roberto Carlos, escrita por Paulo César Araújo, assim como o livro sobre Garrincha produzido por Ruy Castro e, em ambos os casos, nada vi que desabonasse os protagonistas. Na realidade, ao se enveredar por páginas que fazem renascer diante dos olhos dos leitores o que ocorreu ao longo da vida de personalidades das artes, esportes, política, negócios, sociedade ou de qualquer outro segmento, o que sobressai são acertos e erros, tanto no que tange ao profissional quanto ao pessoal e, em se pensando dessa maneira, estas pessoas são iguais a todos e a qualquer um de nós, ou sejam, meros mortais. A diferença reside no fato de terem se tornado célebres por conta de suas atividades profissionais, êxitos, conquistas e consequente fama e/ou enriquecimento.

Há passagens fantásticas da vida destes biografados que são verdadeiramente inspiradoras, como no caso de qualquer outro ser humano, assim como há momentos de tristeza e entrega, de desilusão e derrota. A biografia de Tim Maia, que também tive a oportunidade de ler, escrita por Nelson Motta, mostra a gangorra da vida de um grande artista, que chegou a ser preso quando jovem, teve sérios problemas com drogas e álcool, mas que além do vozeirão e das composições conhecidas por todos, lutou muito em sua vida pelos direitos autorais sobre suas músicas e tentou fazer com que outros grandes artistas também o fizessem.

A liberdade de expressão foi sacramentada a partir da Revolução Francesa como um dos direitos inalienáveis do homem. O que ela significa na prática? Que podemos falar tudo o que pensamos, escrever sobre qualquer coisa ou pessoa e propagar nossas ideias aos ventos (ou melhor, atualmente, pela rede mundial de computadores) de forma impune? A princípio podemos pensar que sim, mas há, certamente algumas restrições e elas se aplicam a casos extremos, nos quais as pessoas propaguem ideias consideradas imorais, ilícitas, anti-éticas ou quando atentem contra liberdades individuais, no que podemos incluir a privacidade. 

O limite da liberdade de expressão é a loucura suprema, ou seja, aquela que leva alguém a defender o que é indefensável e inaceitável, como a segregação, a violência, a discriminação, a corrupção, a tortura, a ditadura…

A privacidade é direito igualmente formalizado nas sociedades humanas pós-revoluções burguesas. Não somos obrigados a nos expor, a permitir que olhares alheios invadam nosso cotidiano, que saibam de nossas vidas, por onde andamos, o que fazemos, com quem nos relacionamos, como é nosso trabalho… Isso é válido para o cidadão comum e também para a celebridade.

O que escapa a compreensão de todos é que as celebridades, a partir do momento em que ganham os holofotes, tornam-se pessoas públicas e seus passos, em maior ou menor grau passam a ser seguidos de perto por muitas câmeras, microfones, repórteres, fãs… A vida deixa de ser sua e passa a ser de muita gente, que admira ou não seu trabalho, sua produção e que, por conta disso, passa a ter alguma “familiaridade” com o artista, o craque da bola, o político, o intelectual, o cientista…

Outra bola dividida ou rima que não casa refere-se ao fato de que grandes artistas brasileiros, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que durante a ditadura militar brasileira (1964-1984) foram celebrados por suas músicas, atitudes e posturas contrárias as restrições políticas, a tortura e a censura, tenham alterado sua forma de pensar e hoje se manifestem contra a publicação de biografias não autorizadas em que sejam retratados eles ou outras personalidades.

Há o que esconder? Creio que não. O que foi vivido está lá e lhes pertence, é claro, mas também foi vivenciado por outras pessoas, em grande parte dos casos, e está sendo contado aos escritores que produzem linhas sobre estes e outros biografados. 

A contradição existente e que de algum modo choca a grande mídia refere-se ao fato de que bastiões da luta contra a ditadura e suas mordaças, pessoas que sofreram censura a sua arte e que por isso muito se mobilizaram contra qualquer tipo de restrição a liberdade de expressão, tenham mudado tão radicalmente de opinião. Pode ser que existam outros interesses, como por exemplo, a publicação de autobiografias ou de biografias autorizadas, oficiais, com aval destas personalidades. Isso infere negócios e dividendos e, é claro, uma biografia não autorizada pode de algum modo afetar estas publicações. Será que é isso? 

A privacidade, certamente já foi invadida há tempos, desde que os primeiros acordes e os versos iniciais se tornaram conhecidos por milhares ou milhões de brasileiros. Ali se abriam as portas da mente destes célebres brasileiros e, junto com o que pensavam, escancaravam-se os portões, janelas, vitrôs e tudo que existisse entre eles e o mundo que os cerca. Desde que de algum modo chegaram as manchetes de jornais, privacidade é algo que não faz parte de seu dia a dia. É claro que há momentos de intimidade que lhes pertencem e que não são ou foram compartilhados publicamente, mas no geral, suas vidas foram trazidas a público há muito tempo.

Biografias não autorizadas iriam atentar contra seu direito a privacidade? Sim e não. Sim porque não foram autorizadas, ou seja, não tiveram o aval dos biografados, o que constitui um lesa majestade. No entanto, como vivemos num país onde a publicação de um livro que conta a história de uma personalidade, seus altos e baixos, não é considerada ação imoral, ilícita ou anti-ética, a não ser que atente contra a liberdade individual, que é o que realmente está em discussão, a decisão cabe a justiça em sua mais alta instância, o Supremo Tribunal Federal. Não porque, em se considerando que os biografados são nomes de grande conhecimento público por conta de suas vidas marcadas pelo sucesso em diferentes áreas, sendo já de conhecimento geral por propagação via imprensa e diversas mídias o que viveram, a publicação das biografias não autorizadas apenas coloca em formato de livro o que já está, em muitos casos, na boca do povo. E, cá entre nós, o que mais choca é realmente perceber que aqueles que eram contra a censura se posicionarem a favor do “cálice”, ou melhor, do “cale-se” a escritores e biógrafos. A inquisição queimou livros e criou o Index com a lista de obras proibidas, Hitler também fez fogueiras com publicações de autores rejeitados pelos nazistas, a ditadura militar confiscava material subversivo como textos de Marx e Engels, não foi contra isso que se lutou no Brasil dos anos 1960 e 1970?

Por João Luís de Almeida Machado 

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