O sujeito oculto e as escolhas conscientes

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Normalmente pensamos no termo “sujeito oculto” em associação direta a ensinamentos que tivemos em aulas de português, ainda no ensino fundamental, em seus primeiros anos. Refere-se a frases em que não há um sujeito aparente na oração, como por exemplo quando dizemos: “Gostávamos de assistir televisão até altas horas”. Neste momento a professora perguntava quem gostava e tínhamos que identificar como pronomes pessoais, neste caso específico a terceira pessoa do plural, ao pronome “nós”.
Não me refiro neste texto a este “sujeito oculto” da língua portuguesa e também de outras línguas. Penso, neste caso, naquilo que ao falar, deixamos de mencionar, de forma consciente ou inconsciente. Complicado a primeira vista? Então pensemos de forma prática e objetiva a partir de algumas situações.
O adolescente vai sair com os amigos e precisa de autorização dos pais. Há, entre seus pares uma pessoa que a família não aprova. Ao pedir autorização, ao ser questionado pelos pais com quem irá sair, o garoto menciona apenas alguns nomes, de colegas que os pais conhecem e consideram boas companhias. Percebeu o sujeito oculto desta oração, ou melhor, desta situação?
Quando o representante de uma empresa vai lhe vender um produto ou serviço. Imediatamente se coloca a informar sobre as vantagens, benefícios, qualidades do que comercializa. Em nenhum momento menciona aquele “probleminha” ou questão, conhecido de todos e até comentado em matérias de jornais, sites ou mesmo na TV, sobre o serviço que presta ou mercadoria que vende. Novamente temos um caso de “sujeito oculto”.
Não trago a tona esta questão para fazer juízo moral das ações descritas, apenas para que possamos considerar que nos discursos, seja de forma consciente como nos exemplos apresentados, ou inconsciente, há sempre lacunas a serem percebidas e questionadas, inclusive nos nossos. Falamos, assumimos posições, discorremos sobre temas, criticamos ou elogiamos e, na brecha do que trazemos a tona ficam sempre lacunas não preenchidas, desconsideradas, que mereceriam atenção.
Mas nosso olhar parcializado do mundo e ideologizado de acordo com influências culturais, sociais, econômicas e políticas datadas e geograficamente delimitadas acaba nos impedindo de ir mais a fundo. E o pior, não existe mecanismo social estabelecido que nos provoque a maior curiosidade e condição de questionar. As escolas têm essa atribuição, mas como estabelecimentos acorrentados por todas as amarras ideológicas do mundo em que surgiu e se estabeleceu, não consegue desatar os nós e atém-se ao que consta nos currículos, sempre dentro de uma linearidade que impede seus alunos de ver até mesmo outras vertentes, opiniões…
Não é o caso de aceitar ou opor-se a tudo o que existe no mundo. Essa dualidade simplifica demais a relação. O ensejo deve ser o da condição de elaboração crítica que permita fazer a escolha consciente das palavras, num discurso que seja realmente transparente quanto a o que pensamos e somos e não totalmente mediado para responder ao que os demais querem ouvir…
Difícil? Sim, bastante, principalmente se levarmos em conta amarras ideológicas poderosas, como por exemplo o politicamente correto, que nos obrigam a pensar duas ou três vezes antes de nos posicionarmos para que não sejamos censurados. O sujeito oculto é bem isso, é aquele que foi encarcerado, censurado e punido, extirpado socialmente, que não deve aparecer, mesmo que sua presença signifique apenas que é uma pessoa a dizer o que realmente pensa.
Luís Fernando Guimarães protagonizou durante algum tempo na televisão, num quadro humorístico curto em programa dominical, o “super-sincero”, não creio que devamos chegar a este ponto, até porque muitas vezes as palavras devem ser usadas de modo a preservar a nós mesmos e aos demais de situações constrangedoras, mas que este sujeito oculto não pode ficar trancafiado sempre, isso é fato!
Por João Luís de Almeida Machado

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