O tempo que não mais nos pertence

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O Tempo, a mais valiosa matéria-prima do mundo, parece ficar cada vez mais escasso. Criamos meios e recursos variados que teoricamente deveriam nos permitir usufruir de mais tempo livre. Ao invés disso o que vemos são pessoas mais ansiosas, preocupadas com prazos que lhes parecem curtos demais, aparentemente incapazes de responder a todas as demandas que se apresentam.
A tecnologia que é cada vez mais onipresente e a velocidade que nos permite trocar informações e dados como nunca antes na história da humanidade ao invés de libertar parece oprimir. O que é novo hoje, amanhã já pereceu diante do raiar do sol e das necessidades e premências que com ele surgem. Escrevo estas linhas na manhã que se inicia ciente que serão consumidas rapidamente, como se tivessem data de validade pré-estabelecida e, assim sendo, não passíveis de serem reutilizadas em outro momento.
É claro que não é assim e nem deve acontecer deste modo. Não são os recursos que criamos que nos oprimem. A opressora modernidade advém da própria atitude assumida pelos homens a se impor ritmo brutal e necessidade imediatista. Somos nós mesmos os carrascos que acionam a guilhotina diariamente e que vemos nossas cabeças rolarem, literalmente, em direção ao cesto…
Mudar, neste caso, significa desacelerar a existência. Fazer uma coisa de cada vez. Mesmo quando trabalhamos com a tecnologia, que nos permite tantas ações paralelas. O multitasker ou multitarefas criado com o advento de todas as facilidades virtuais, por exemplo, associadas as materiais, precisa ser revisto. Para as novas gerações ele parece tão natural quanto o ar que respiramos, mas não é…
Quando nos predispomos a estudar e, ao mesmo tempo, conversar com alguém pelo telefone, atender chamadas pelos comunicadores instantâneos, ouvir música e preparar um texto ou uma transparência não estamos bem, como muitas pessoas podem pensar. Estamos doentes. Afetados por forças opressoras próprias de uma dinâmica de vida que não nos percebe como seres humanos e, sim, como peças de engrenagens (ou seria melhor atualizar e dizer de sistemas computadorizados complexos).
Vivemos e trabalhamos dentro de uma lógica que remonta ao sistema industrial, por isso continuamos batendo cartão (ou simplesmente passando os crachás ou as digitais por modernos sistemas de controle de nosso tempo). Das 8 da manhã as 5 ou 6 da tarde estamos em nossos locais de trabalho, mas diferentemente do período industrial propriamente dito, não conseguimos desligar em momento algum e ainda, respondemos pessoalmente por várias funções e não apenas por aquelas que definiram inicialmente nossas contratações.
O que quero dizer com isso? Novas ações são incorporadas ao cotidiano por conta do advento de ferramentas tecnológicas que pedem resposta imediata, acionadas muitas vezes por nós mesmos. No final dos anos 1990 eram apenas os e-mails, que haviam se juntado aos telefones, transformados por sua vez em dispositivos móveis, que passaram a permitir que fôssemos localizados em qualquer lugar e a qualquer hora do dia…
Viramos o século, iniciamos um novo milênio e estas ferramentas foram atualizadas ano após ano, incorporando facilidades, meios, recursos, ferramentas e plataformas que nos fizeram crer no Olimpo entre nós, ou seja, que estamos cada vez mais nos dirigindo a uma realidade fantástica, maravilhosa, atingindo o “admirável mundo novo” previsto por Aldous Huxley… O problema é que o ficcionista inglês (e tantos outros mestres das letras que escreveram sobre o que estava por vir, como George Orwell, em um de seus clássicos “1984″) não consideravam este porvir tecnológico tão admirável e belo assim…
Não atendemos apenas nossos telefones celulares ou verificamos nossa caixa de e-mails (que para os mais jovens se tornou ferramenta obsoleta), hoje temos que nos integrar as redes sociais e a sua dinâmica acelerada, de respostas online, atualizando constantemente as nossas ações e ideias, respondendo imediatamente a inúmeras pessoas que pedem nossa atenção, deslocando o foco para atender o MSN ou o Skype, olhando para a tela da TV (e zapeando entre tantos canais que são oferecidos via satélite ou por cabo), com fone no ouvido a apreciar alguma nova batida musical que está hoje na moda (e que amanhã pode já estar morta ou superada), adquirindo um produto pela internet… Ufa!
E quanto tempo sobra para respirar, encontrar-se com amigos (há quem os tenha somente no universo virtual, onde é possível conciliar tudo isso), cuidar da família, dar um tempo para nós mesmos, tomar os necessários cuidados com a alimentação, fazer exercícios físicos ou simplesmente sentar-se a sombra de uma árvore, de papo para o ar, sem ter que fazer nada de produtivo, exercitando somente o ócio criativo preconizado pelo sociólogo italiano Domênico de Masi.
Significa que devemos agir como os ludistas do século XIX, que quebravam as máquinas das nascentes indústrias inglesas atribuindo a elas o seu desemprego, miséria e baixos salários?
Não é isso. A tecnologia não é, como já mencionei, opressora por si só. É preciso repensar e modificar a relação com todos estes recursos, a compreensão de que as tecnologias são apenas meios e ferramentas que podem e devem nos auxiliar a viver e trabalhar melhor e não os fins ou objetivos que nos movem.
Dê-se tempo de presente em sua vida. Reserve partes do seu dia para um prazer que lhe apetece e que não está relacionado as modernidades. Descubra a natureza. Circule pela rua sem se preocupar com compromissos, trabalho. Deixe o celular em casa. Vá para a cozinha e prepare uma deliciosa refeição para você e seus familiares. Desconecte-se durante algumas horas para encontrar amigos ou ler um livro. Passeie com seu cachorro. Dê uma volta de bicicleta pelo bairro em que mora. Saia para tomar um sorvete ou um café, sem se preocupar com o relógio, apenas pelo prazer de degustar essa delícia. Permita-se viver!
Por João Luís de Almeida Machado

One thought on “O tempo que não mais nos pertence

  1. Olá João…
    O post me leva para uma outra direção: na realidade a variável aqui é quantidade X qualidade.
    Termos mais tempo otimizado por tecnologias para nos “liberar” de determinadas tarefas não significou uma melhora na qualidade desse tempo “avulso” excedente (se é que assim podemos nos referir a ele). Esse talvez tenha sido o grande equivoco. Afinal é a qualidade que determina o que se tem e não sua quantidade.
    Talvez aprender a priorizar e valorizar o que efetivamente conta seja um caminho para enxergar meios de usar esse recurso tao escasso e valioso.
    Abs

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