No império do Big Brother: A espionagem como parte do cotidiano de todos

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Nos anos 1970 a revista MAD publicava uma tira irônica chamada SPY vs SPY. Tratava-se de uma sátira pouco sutil ao mundo em que vivíamos, no qual a Guerra Fria imperava e a oposição entre EUA e URSS fazia com que as duas superpotências utilizassem de diferentes meios para estar a frente de seu inimigo, o que incluía apossar-se de segredos através da espionagem. Estas tiras continuam sendo publicadas pela revista, só que agora a história é outra…

O Big Brother já existia então – como havia antecipado Orwell em sua célebre obra “1984”, ainda no final dos anos 1940, quando publicado o livro. Existia uma limitação técnica devido ao fato de que até então, naqueles anos 1960 e 1970, em que o conflito entre norte-americanos e russos acontecia, o mundo ainda não estava conectado em rede através da internet. A Arpanet e outros sistemas assemelhados eram limitados a uso militar ou acadêmico, tendo se estabelecido a partir da segunda metade da década de 1960. As redes de fibra ótica evidentemente também não estavam disponíveis e, com isso, eram ainda maiores as dificuldades para se obter informação de forma rápida e eficiente como hoje em dia.

A espionagem era focada em especial nos inimigos e, dentre eles, nas figuras de grande ou relativa importância. Não era possível estender a espionagem para o cotidiano do cidadão comum. Políticos, militares, cientistas, empreendedores e outras eminências eram o foco da espionagem. Ampliar a ação dos espiões para acompanhar o que faziam os próprios aliados era algo pouco praticado, apesar de acontecer, tendo em vista o que isso representava em termos de recursos materiais e humanos em uma época em que haviam inimigos tão poderosos que eram a prioridade máxima.

A América Latina, por exemplo, área de influência dos EUA, com a ascensão de Fidel Castro ao comando de Cuba e a definição na ilha quanto ao regime socialista e a aproximação com os soviéticos, ampliou a preocupação dos americanos que passaram a monitorar mais proximamente aliados de peso na região, como os brasileiros, ou até mesmo se envolver nas querelas locais a ponto de promover, incentivar e financiar golpes de estado em países deste lado do mundo. Ainda assim a espionagem limitava-se a chefes de estado, jornalistas, acadêmicos, lideranças do segmento civil, empresários, artistas e toda ou qualquer pessoa que de algum modo pudesse irradiar pensamentos e ações contrárias ao interesse norte-americano. Os russos também estavam por aqui, fomentando a revolução mundial direta, com Che Guevara na Bolívia, por exemplo, ou no compadrio com partidos políticos de esquerda e seus representantes, para os quais enviava verbas e diretrizes regularmente.

Com a internet hoje é possível espionar todo mundo, literalmente. As recentes denúncias de prestigiosos jornais como o inglês “The Times” ou o americano “The New York Times” de que a criptografia é constantemente burlada pela NSA, agência de inteligência dos EUA, permitindo-se o acesso a informações confidenciais de qualquer usuário da internet em que localidade do mundo for necessário buscar estes dados é apenas a confirmação daquilo que todos imaginavam estar acontecendo mas que certamente não queriam acreditar, ou seja, o Big Brother é fato nos dias de hoje.

Além de burlar elementos de segurança como a criptografia, as informações divulgadas nos jornais, a partir das denúncias de Edward Snowden ou do WikiLeaks, entre outras fontes, nos mostram que governos aliados dos EUA, como o Brasil, estão sendo monitorados constantemente. 

Outra informação que veio a tona diz respeito ao fato de que há a cooperação de importantes empresas de tecnologia como Google, Yahoo, Microsoft, Facebook e outros gigantes do setor no processamento e abertura de informações de seus usuários para o governo de Barack Obama. Há até a confirmação de que fabricantes de hardware já estariam instalando nos equipamentos que vendem nos EUA e fora do país recursos que facilitam a busca de dados em qualquer computador pelos espiões da NSA com a finalidade de alimentar de dados não somente a CIA ou o FBI, mas também a Casa Branca e outras esferas de poder naquele país.

E o uso apregoado destas informações, que estaria vinculado ao combate ao terrorismo internacional, é apenas um dos motivos evidenciados quanto a invasão de privacidade em nível mundial. Até mesmo empresas estrangeiras, como a Petrobrás, estão sendo espionadas pela NSA que, em nota a imprensa brasileira, esclareceu que as informações obtidas quanto a empresas locais não estariam sendo utilizadas para favorecer seus concorrentes diretos nos EUA. Um alívio, não é mesmo, saber que estes dados não chegam aos competidores norte-americanos da Petrobrás… E quem garante isso? É claro que a credibilidade de quem espiona descaradamente qualquer pessoa, empresa ou governo do mundo é zero, ou seja, não dá para acreditar nisso, é preciso averiguar o mercado mundial para ver como este acesso a informações confidenciais de empresas espionadas, tais quais a Petrobrás, foram afetadas em seus interesses.

O que é certo hoje é que estas linhas, as fotos publicadas por um cidadão comum em suas redes sociais, trabalhos acadêmicos, pesquisas confidenciais realizadas por empresas globais, e-mails de executivos e lideranças governamentais, conversas ao telefone de presidentes de países, como Dilma Rousseff, entre outras informações que circulam pela web, estão sendo monitoradas.

O que falamos, o que escrevemos, o que fotografamos ou filmamos para divulgar pela rede mundial de computadores não nos pertence, ainda que utilizemos todos os expedientes de segurança disponibilizados pelas empresas do segmento, até mesmo porque algumas delas colaboram com esta invasão de privacidade e alimentam o Big Brother. Spy versus Spy se estabeleceu no mundo e não irá retroceder, a tendência é que cada vez menos nossos passos sejam livres como desejamos que sejam, haverá sempre uma escuta, câmera ou monitoramento a nos acompanhar…

Por João Luís de Almeida Machado

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