O discurso de Martin Luther King: 50 anos de um sonho

ImageQuem somos nós? Somos descendentes de escravos. Somos a prole de homens e mulheres dignos que foram arrancados de seus lares e acorrentados em navios como animais. Somos os herdeiros de um grande e explorado continente conhecido como África. Somos os herdeiros de um passado de humilhação, fogo e assassinato. Eu pessoalmente não me envergonho desse passado. Envergonho-me, sim, daqueles que se tornaram desumanos a ponto de torturar-nos desse modo. (Martin Luther King).

Os Estados Unidos, terra da liberdade, apregoado aos quatro cantos do mundo como o país das oportunidades, defensor da democracia e dos direitos individuais tem em sua história uma terrível história de dor e sofrimento relacionada à sua comunidade negra. Desde a libertação do país do jugo colonial inglês, no final do século XVIII, num dos mais célebres momentos de luta pela independência de que se tem notícia no mundo, a pátria de George Washington se viu cindida entre dois polos quanto à questão racial: havia aqueles que amparavam o segregacionismo e muitos outros que se indignavam com o racismo.

Somente a indignação não bastava, entretanto, para que a igualdade e a liberdade dos negros norte-americanos fossem obtidas. Algumas décadas depois da pioneira ação libertária dessa jovem e proeminente nação aconteceu a Guerra Civil Americana que colocou em foco, mais uma vez, os diferentes posicionamentos daqueles que eram favoráveis à integração dos negros à sociedade americana e seus oponentes escravocratas.

O saldo dessa sangrenta batalha travada ao longo de mais de 5 anos foi a destruição da região sul daquele país, a criação de maiores resistências a integração, o surgimento de sociedades secretas que passaram a perseguir e atentar violentamente contra os negros e, até mesmo, a morte de um dos mais destacados presidentes da história dos Estados Unidos, Abraham Lincoln.

Depois da Secessão veio a covardia dos racistas que se escondiam debaixo de lençóis e assassinavam covardemente a crianças, adultos e idosos negros simplesmente em virtude de suas origens étnicas e raciais.

Dizem que alguns de nós são agitadores… Eu estou aqui porque amo os brancos. Enquanto os negros não forem livres, os brancos não serão livres… Eu estou aqui porque amo o meu país. Vou viver aqui nos Estados Unidos pelo resto de minha vida. Não sou um forasteiro. Qualquer pessoa que vive nos Estados Unidos não é um forasteiro nos Estados Unidos. (Martin Luther King)

Casas eram queimadas, pessoas eram arbitrariamente presas e espancadas, reuniões de negros eram proibidas e dispersadas com brutalidade, não se destinavam a essas comunidades as benesses sociais que eram concedidas aos brancos e, se não bastasse tudo isso, as autoridades federais não faziam prevalecer as leis do país, deixando as questões raciais para serem resolvidas nos âmbitos estaduais e municipais. O sul do país fervia e a questão dos direitos civis nunca deixava as páginas policiais dos principais jornais para adentrar as discussões políticas…

Essa história marcada por atrocidades e inúmeras mortes começaria a mudar a partir da década de 1950, com o surgimento no cenário nacional do pastor protestante Martin Luther King. Tendo crescido em Atlanta, na Geórgia, King vivenciou na própria pele a experiência de ter de entrar em cinemas por portas laterais e sentar nas últimas poltronas (reservadas para os negros); não podia ir a uma grande quantidade de restaurantes por que eles simplesmente se recusavam a atender os negros; era proibido de frequentar piscinas e parques públicos reservados somente para os brancos da comunidade; tinha que utilizar salas de espera em estações ferroviárias, bebedouros e assentos de ônibus e trens separados dos brancos apenas pelo fato de ser negro…

Até mesmo em suas viagens de carro para outras cidades os negros norte-americanos tinham que ter preocupações com sua segurança, pois não eram aceitos em hotéis e motéis em todo o Sul dos Estados Unidos. Nesse caso dependiam do apoio de parentes e amigos para conseguir hospedagem.

Esses flagrantes desrespeitos aos direitos civis eram previstos em leis que ficaram conhecidas pela alcunha “leis Jim Crow” em mais um claro desacato a comunidade negra já que esse personagem ironizava os negros do Sul do país através de representações satíricas em que o sotaque local e os cantos e danças eram imitados com o propósito de humilhar e menosprezar aquelas pessoas.

Pertencente a uma família de melhores condições econômicas, que tinha casa própria e automóvel, Martin cresceu num ambiente de fortes convicções políticas e religiosas. Tanto o pai quanto o avô dele foram pastores o que lhes conferia certo status perante a comunidade e também a possibilidade de estudar e ter uma melhor formação.

Sua primeira grande indignação com o racismo ocorreu quando estava prestes a entrar na escola e foi informado por um de seus melhores amigos, filho de um comerciante branco, de que não poderiam estudar juntos pela diferente cor de pele que possuíam. Ao relatar o ocorrido aos pais, escutou deles um pouco da sofrida história dos negros nos Estados Unidos. Decidiu, a partir de então, que passaria a odiar os brancos e jamais se esqueceu das palavras de sua mãe: “Jamais pense que você é menos do que qualquer outra pessoa. Lembre-se, sempre, de que você é alguém”.

Não levou adiante a sua primeira reação ao racismo. Ao invés disso trilhou os caminhos de Gandhi, o sábio líder indiano que levou o seu país a libertação do jugo colonial inglês sem pegar em armas, advogando em favor da não violência. Os exemplos e ensinamentos provenientes da vida e das práticas políticas de Gandhi iluminaram a ação de King e o tornaram um dos maiores e mais respeitados lutadores pelos direitos civis da humanidade.

A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça para a justiça em todos os lugares. Estamos presos numa rede de reciprocidade, da qual não se pode escapar, ligados por um único e mesmo destino. (Martin Luther King)

Entre os anos de 1947 e 1948 tornou-se pastor da Igreja Batista e formou-se em direito. Ainda iria se especializar em teologia poucos anos depois. Foi nesse período que a Índia, depois de 185 anos de dominação, havia se libertado da Inglaterra e a franzina figura de Gandhi engrandecera aos olhos de King. A estratégia de Gandhi de resistência não-violenta e sua ideia de desafiar as injustiças como “não cooperação com o mal”, mesmo que isso lhe custasse a vida, embeveceram o futuro líder dos direitos civis.

A pregação de que a maior força estava em mudar o inimigo graças ao amor pela humanidade e não em desferir ataques carregados de ódio e violência tornaram-se lições importantes para Luther King. Em seu trabalho como pastor numa igreja Batista em Atlanta, King passou a ter a oportunidade de trabalhar mais diretamente com a comunidade negra e conhecer seus problemas e dramas a ponto de iniciar sua atuação política a nível nacional.

Percebeu que os negros da classe média se acomodaram em uma situação material mais confortável e não se mostravam dispostos a lutar pela mudança da situação nacional quanto aos direitos civis. Os pobres, por sua vez, pareciam acreditar que realmente eram inferiores e não pensavam em articular-se por melhores condições de vida.

Foi a partir de 1955, com o chamado “Milagre de Montgomery” que teve início a curta e vitoriosa luta de Martin Luther King pelos direitos civis nos Estados Unidos. Ao se recusar a ceder o seu lugar no ônibus a um passageiro branco, a costureira Rosa Parks acabou sendo presa por desacato às leis segregacionistas do estado da Geórgia. Era a oportunidade que as lideranças negras tanto esperavam para colocar a questão racial em debate nacional…

Iniciou-se então um grande boicote aos ônibus de Atlanta liderado por King e outros membros da comunidade negra local. A adesão foi grandiosa e os ônibus circularam vazios durante a manifestação. Para tornar a briga ainda mais interessante o juiz local condenou Rosa Parks e abriu espaço para uma apelação a Suprema Corte.

Depois desse incidente ocorreram embates e protestos que deixaram o âmbito local e se espalharam pelos Estados Unidos, especialmente nas regiões mais racistas. Apesar dos ânimos exaltados, King adotou os princípios de Gandhi e passou a se articular em favor de uma resistência pacífica. Foi criticado e sofreu ameaças por seus posicionamentos, mas a história mostrou que estava correto.

Os impedimentos legais foram caindo, novas manifestações surgiram e o mais importante, o orgulho da comunidade negra norte-americana estava de volta. Não iriam mais baixar a cabeça e se curvar senão “perante Deus”, como dizia o próprio King, cada vez mais seguro quanto as suas convicções e práticas.

Um dos pontos altos de sua impactante vida aconteceria em 28 de Agosto de 1963 quando conseguiu reunir cerca de 200 mil manifestantes em favor dos Direitos Civis nos Estados Unidos. Nessa ocasião proferiu seu mais célebre discurso em que fala de seus sonhos de liberdade e igualdade no mundo. A Lei dos Direitos Civis viria logo em seguida, no ano de 1964.

Pelo conjunto de suas ações, Martin Luther King receberia o Prêmio Nobel da Paz também no ano de 64. Iniciou então outras importantes lutas nos Estados Unidos, pelo direito ao voto para a comunidade negra, contra a guerra do Vietnã e também em favor de oportunidades de emprego para os pobres do país.

Foi assassinado em 4 de abril de 1968 em Memphis quando se preparava para participar de manifestações favoráveis ao surgimento de um sindicato de garis e lixeiros naquela cidade. Seu legado juntou-se ao de seu principal mentor e tornou-se uma das mais importantes contribuições à paz, a liberdade e a igualdade da humanidade.

Por João Luís de Almeida Machado

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