A vida digital em ‘fast foward’

fast foward

Toda mudança tecnológica é uma mudança de geração. Todo o poder e todas as consequências de uma nova tecnologia só se tornam visíveis depois que aqueles que cresceram com ela se tornam adultos e começam a empurrar seus pais antiquados para a periferia. À medida que as gerações mais velhas morrem, levam consigo o conhecimento do que foi perdido quando a nova tecnologia chegou, e fica só a impressão do que foi ganho. É dessa forma que o progresso disfarça suas pegadas, refazendo perpetuamente a ilusão de que o lugar onde estamos é aquele onde devíamos estar. [Nicholas Carr, em seu livro “A Grande Mudança – Reconectando o mundo, de Thomas Edison ao Google”, da Editora Landmark]

Faça uma viagem breve no tempo. Retorne para o mundo de 15 anos atrás. Se esforce para recordar o seu cotidiano. Lembre-se dos detalhes. Como era o início de seu dia. Hábitos de estudo e/ou trabalho. Alimentação. O que fazia nas horas de lazer. Como se relacionava com as pessoas. Quantos ambientes frequentava regularmente. Como eram os utensílios e máquinas que usava então. Se praticava atividades esportivas…

Faça estas perguntas para pessoas da geração anterior a sua e peça a elas que retornem 20 ou 30 anos no tempo. Anote todas as respostas. Se possível, peça aos amigos e conhecidos que respondam questões semelhantes. Quanto às pessoas de outras gerações, faça o mesmo e se preocupe sempre em anotar as respostas.

As respostas obtidas vão fazê-lo dar alguns passos na direção da história recente da humanidade. Mais especificamente você estará recordando a vida cotidiana dos brasileiros e, para ser mais exato ainda, do contexto em que vive e mora.

Perceberá que, por exemplo, a alimentação mudou muito. Se antes as mães passavam mais tempo em casa e não estavam tão integradas ao mercado de trabalho, tornando-se fonte de renda complementar [ou principal] ao orçamento doméstico, hoje as mulheres estão cada vez mais emancipadas e, consequentemente, a praticidade tomou conta das cozinhas e da alimentação…

Nunca as pessoas se alimentaram tanto em restaurantes ou se utilizaram de alimentos pré-preparados como hoje em dia. As indústrias agradecem. A saúde lamenta. Os feirantes e produtores agrícolas também sentem as perdas… Mas quem há de lamentar, é a prosperidade batendo a nossa porta…

Até muito recentemente era comum que as pessoas se relacionassem literalmente “ao vivo e em cores”, ou seja, se encontrando para bater papo, namorar, se divertir, desabafar, aprender, coexistir… Hoje em dia há um fenômeno mundial chamado “cocooning” [que quer dizer encasulamento, numa tradução livre]. Este termo originário da língua inglesa refere-se às pessoas, na grande maioria dos casos adolescentes ou jovens entre 12 e 30 anos, que estabelecem relações com amigos e namorados apenas a distância.

Seu elo de comunicação são os moderníssimos celulares ou a Internet, através dos quais trocam mensagens, fotografias, filmes ou ainda se falam [pois é… os celulares também servem como telefone!] a distância. Muitos deles demonstram dificuldades para criar vínculos nas escolas, empregos ou mesmo nas famílias às quais pertencem… Aquele negócio de pegar na mão, sair para dançar, convidar para um café ou almoço, dar uns beijos e namorar pra valer está mesmo ficando fora da moda…

Outra coisa que se fazia antigamente e que está caindo em desuso é reunir a turma para jogar bola, andar de bicicleta ou praticar atividades esportivas em grupo. É melhor jogar futebol nas telinhas… Os lances são mais espetaculares… Jogadores de futebol têm que esclarecer que não conseguem fazer o que seus clones executam no Playstation… Até para os maiores jogadores do mundo, como Messi ou Neymar, o que está acontecendo no mundo virtual está ficando fora de cogitação… Imagine então para os reles mortais, pernas de pau de final de semana… Para que passar vergonha… A Techno Geração resolveu o problema ao simplesmente deixar de jogar no real e adotar o virtual como a sua praia, quadra, campo, estrada…

E o estudar… Mudou? Claro, antes o tempo da reflexão, pesquisa, elaboração de projetos e tarefas, produção textual e/ou leituras era outro, muito mais lento… Basicamente falando, era como se no passado tudo fosse feito a ritmo de tartaruga e, hoje em dia, turbinados pelas tecnologias, as novas gerações andassem como os velozes coelhos… Na fábula da lebre e da tartaruga, no final, quem era o vencedor mesmo?

Precisa saber o que é fotossíntese? Pesquise no Google e em alguns segundos terá respostas, desenhos, infográficos, dados… Equações matemáticas? Não tenha dúvidas, procure auxílio através da web, há professores online que podem auxiliar você… Quer maiores informações sobre os atentados as torres gêmeas em 11 de setembro de 2001?… Os arquivos dos jornais da época estão todos digitalizados e são facilmente acessíveis… É só descobrir onde estão, copiar e colar… Cadê a reflexão? Onde está o rigor científico? Que tipo de formação é esta? Aonde chegarão estes garimpeiros da Web?

Mas, como nos diz Nicholas Carr, à medida que todas estas maravilhas se incorporam ao cotidiano e as gerações passadas que vivenciaram outras realidades se vão, suas lembranças, bases, parâmetros, recursos, relações e padrões vão sendo não apenas abandonados… caem no esquecimento… E se antes seu destino era “mofar” nas páginas de livros de história… hoje estão em algum canto da rede mundial de computadores… Abandonados à própria sorte… prestes a serem “deletados” como arquivos mortos, sem utilidade, desprovidos de valor…

Por João Luís de Almeida Machado

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