O mundo digital e as escolas sem professores

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(Manchete do site Inovação Tecnológica, 03/02/2006)
O ano é 2030. As pessoas não mais vão a escola. Tudo o que precisam saber é implantado em seus cérebros a partir de chips miniaturizados, como parte do conceito da nano-tecnologia, inseridos por seus ouvidos. O processo foi tão aperfeiçoado que nenhuma dor é sentida. Com o surgimento deste procedimento as escolas foram varridas do mapa. Ainda se houve falar delas em alguns lugares longínquos, em comunidades remotas. O que se sabe, ao certo, é que qualquer dado ou saber produzido pela humanidade ou percebido pelo contato com a natureza está disponível em upgrades que podem ser rapidamente descarregados no cérebro humano, por processos tão simples quanto um download de computador.
Há, quando ainda somos crianças, um chip preparado de acordo com tal faixa etária, nos conformes daquilo que pensaram Piaget e Vigotsky, por exemplo, como saberes apropriados a tal momento da evolução e desenvolvimento cerebral dos seres humanos. Quando fazemos 3 anos, descarregam-se informações relativas a todo o conhecimento que deveríamos adquirir na educação infantil. Aos 6 anos recebemos os dados compilados da formação equivalente as primeiras séries do ciclo fundamental. Aos 12 somos reforçados com doses equivalentes ao ensino fundamental 2 ou antigo ginásio. E, assim sucessivamente, passando pelo que a ciência, a filosofia, as artes, a literatura, a matemática e todos as demais áreas do conhecimento podem nos proporcionar.
Quando atingimos os 18 anos, nos é dada a opção de escolher, dentre as diversas profissões existentes, em especial aquelas em que há maior oferta de oportunidades, o que iremos fazer pelos próximos 40 anos de nossas vidas. A escolha profissional é igualmente guiada por sofisticados programas de computador acessíveis a qualquer cidadão do mundo a partir de rápidas conexões entre nosso cérebro e o banco de dados mundial, acessível via wireless em qualquer país e cidade do planeta e, até mesmo, em estações espaciais e núcleos de povoamento em planetas nos quais os seres humanos já estão instalados.
É neste momento que se selam os destinos de cada um dos bilhões de seres humanos espalhados pelo nosso sistema solar. Surgem engenheiros, administradores, técnicos nas mais diversas e avançadas ciências, economistas, ambientalistas, advogados, médicos, arquitetos… Como os sistemas eletrônicos e virtuais suplantaram a necessidade de professores, os cursos de pedagogia e licenciaturas (como história, matemática, geografia, línguas, educação artística…) desapareceram. Não se formam mais professores. Eles não são mais necessários. 
Professores ensinavam aquilo que os computadores e chips conseguem colocar no cérebro humano em segundos. Demoravam anos para fazer seus alunos aprenderem as teorias, cálculos e demais saberes trabalhados em suas aulas. O próprio conceito de aula tinha sido superado. Imaginem só… Um homem ou mulher, a frente de um grupo de alunos, discorrendo a respeito de temas diversos encontrados em livros (que por sua vez haviam sido substituídos pelos livros digitais, multimidiáticos, cheios de sons, efeitos especiais, imagens…), tentando envolvê-los, trazê-los para debates e discussões, incentivá-los a ler, pesquisar, estudar… Não dava mais certo!
As novas gerações queriam apenas se conectar. Porque levar tanto tempo para saber, conhecer? Estudar para que se tudo estava naqueles arquivos digitais? Alguns downloads traziam todo o saber da humanidade, da Grécia Antiga e seus filósofos a Newton e Einstein, das Conquistas Romanas as devastadoras Guerras Mundiais do século XX, das teorias de Euclides e Pitágoras as mais recentes descobertas dos matemáticos e engenheiros, idealizadores dos computadores, sistemas e chips que trouxeram o equilíbrio e a harmonia a este mundo de 2030…
Até mesmo nossos sentimentos haviam sido controlados. Não havia mais violência. Nossos relacionamentos eram estáveis pois nos chips implantados em nossos cérebros recebíamos doses de informação e química que nos tornavam mais passivos, tranquilos, controlados. Dentre os dados recebidos estavam também informações quanto a como amar, quem amar, de que modo podemos fazer amigos, quais pessoas devem ser nossos amigos… Tudo na medida exata, de acordo com a necessidade de todos…
Existia, no entanto, em alguns países, focos de resistência a essa Nova Ordem. Pessoas que não queriam o implante de chips nos cérebros. Homens e mulheres que viviam na clandestinidade. Pensavam que era melhor viver aos poucos cada momento da vida, adquirindo saberes a partir de experiências reais e imediatas, relacionando-se diretamente com a natureza e os outros seres vivos, em especial com outros seres humanos, sem a mediação de qualquer tecnologia. Eram considerados rebeldes. Suas comunidades ficavam em locais distantes e, segundo consta, nelas ainda existiam escolas.
Os líderes destes núcleos eram ex-professores que mantiveram sob seu domínio expressivas quantidades de livros antigos, proibidos pelos poderosos da nova ordem, através dos quais procuravam ensinar as novas gerações. Nessas localidades as pessoas podiam estudar e ler o que quisessem, orientados por tutores que esperavam fazer com que seus alunos percebessem o universo e todas as suas possibilidades. O propósito era fazer com que aprendessem a ler o mundo, se tornando altivos, capazes de escolher seus caminhos por conta própria, exatamente como propunha Paulo Freire, um renomado educador brasileiro do século XX e uma das principais referências destes grupos.
Os relacionamentos, de amizade e amor, nestas comunidades alternativas, não eram induzidos, ou seja, você era incentivado a ser tolerante e respeitoso em relação a todos, mas podia escolher quem iriam ser seus amigos e por quem bateria mais forte seu coração. As profissões e a capacitação ali existentes não eram pré-estabelecidas pela necessidade das empresas, do mercado ou do estado. As pessoas podiam, a partir de orientação da família ou dentro das escolas, escolher o que gostariam de fazer. A propósito, gostar daquilo que se escolhe fazer era considerado critério básico para a escolha da profissão, do trabalho.
As informações relativas a este universo perdido no meio de matas nativas, em comunidades tão fantásticas quanto o Eldorado ou Atlântida, não são reveladas nas cidades da Nova Ordem… São proibidas a qualquer pessoa e só circulam entre os líderes. Para o povo, são boatos como as cidades de ouro encontradas por Marco Polo em suas viagens ao Oriente. Fiquei sabendo delas por um velho professor, confinado numa das poucas e secretas prisões mantidas pelo sistema para rebeldes, muitos deles educadores inconformados com o rumo da vida neste admirável mundo novo em que vivemos…
Segundo me disse, há rebeldes formados pelos professores que estão se inserindo na Nova Ordem e que, num futuro próximo, pretendem a revolução contra as opressões do sistema… São livres pensadores, foram educados com livros, conhecem a tecnologia, sabem seus segredos, percebem suas vantagens e desvantagens, mas querem que a humanidade seja novamente senhora de seu destino, de seus passos, de suas realizações… Entre as principais mudanças que pretendem para o futuro estão a volta dos livros e das escolas… E, ainda de acordo com este velho homem, querem fazer com que o dia 15 de outubro seja o dia da emancipação…
Por João Luís de Almeida Machado

5 thoughts on “O mundo digital e as escolas sem professores

  1. Adorei…principalmente quando o texto aponta que precisamos de livres pensadores…que conheçam as vantagens e desvantagens da tecnologia…reflitam criticamente…não apenas achar tudo perfeito.

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