O dilema da geração digital: Quando desligar?

Image“Minha geração passou 24 horas por semana olhando para uma televisão. Hoje jovens gastam uma quantidade de tempo equivalente com as tecnologias digitais, mas como usuários, organizadores, atores, colaboradores”. “

 

“Para os adolescentes de hoje, fazer o dever de casa é um evento social que conta com a colaboração de SMS e do Facebook, enquanto o iPod toca ao fundo”.

 

“O principal interesse da geração conectada não é a tecnologia, mas o que pode ser feito com ela. Eles são inteligentes, têm grandes valores, sabem como usar ferramentas de colaboração e estão preparados para lidar com muitos dos grandes desafios e problemas que a minha geração está deixando como herança”.

 
As frases acima são de autoria de Don Tapscott, autor dos best-sellers “Geração Digital”, “Wikinomics”, “A hora da geração digital” e “MacroWikinomics”, obras referenciais para quem quer entender o mundo conectado em que estamos vivendo hoje em dia.
 
Tapscott, de 66 anos, parece com os adolescentes e jovens que descreve como parte da Geração Net quanto ao entusiasmo e disposição para falar e exponenciar as possibilidades da relação que se estabelece entre as tecnologias e os nativos digitais. 
 
Há motivos para isso. A colaboração em rede, destacada por ele como o grande foco destes jovens realizadores deu a pessoas do mundo inteiro a chance de criar ferramentas e trocar ideias, gerando a distâncias antes inimagináveis, o potencial da troca, do intercâmbio e da cooperação.
 
É possível e está acontecendo neste momento a troca de dados, informações e a realização de projetos envolvendo pessoas que estão em diferentes cidades, países e continentes. Vivemos uma era de transformação pautada no conceito do software livre, constituído a muitas mãos (e cérebros), em constante mutação e aperfeiçoamento.
 
Temos empresas que desenvolvem softwares e aplicativos, trabalham e investem em novas soluções quanto a hardware e que certamente contribuem muito para a evolução dos recursos tecnológicos. Diferentemente de anos e décadas anteriores, no entanto, há uma boa parcela deste trabalho sendo feito por programadores e realizadores que estão em suas casas ou garagens, cultivando as bases e origens da cultura original que gerou os computadores pessoais e toda esta revolução em andamento.
 
Há, no entanto, mesmo em se verificando toda a intensidade e movimento que ocorrem mundo afora, nos espaços virtuais ou presenciais, uma parcela considerável de adolescentes e jovens que estão presentes na rede mas que vivem de forma a apenas consumir informações e oferecer dados que não compõem novos aplicativos ou softwares. Não que todos devam assim fazê-lo, até mesmo porque é preciso realizadores fora do universo virtual tanto quanto (ou ainda mais, me arriscaria a dizer) nos limites dos bits e bytes.
 
Uma parcela considerável do tempo humano está sendo gasta diante de computadores e isto acontece de uma forma inerte, apenas como pretensa interação, sem que a pessoa que disso participa realize para si e para o mundo. A forma como as pessoas gastam horas e horas diante dos computadores e teclados a falar sobre as futilidades ou replicar mensagens ocasiona uma paralisia e uma tendência clara ao ocaso, a queda, as dificuldades de socialização e até mesmo a questões ainda mais complexas relacionadas a psiquismos, como já detectam alguns pesquisadores.
 
As redes sociais podem contribuir, como os demais recursos tecnológicos surgidos nos últimos anos, para uma vida melhor desde que não se tornem o centro das ações humanas e, em especial, que não sejam vistos como simulacros que substituem o real, as interações entre as pessoas, a vida em contato com outros seres vivos (homens e todos os demais componentes da natureza). Participar de redes em dose excessiva pode ser nocivo a qualquer pessoa. 
 
Outra real preocupação é o excesso de informações postadas em redes sociais que tornam as pessoas mais vulneráveis, não apenas perante seus pares, com quem interage de forma mais imediata nestes canais de comunicação, como também perante o mundo como um todo. Julian Assange, do Wikileaks, em seu livro “CypherPunks”, destaca como empresas e governos estão se apossando de seus dados, inseridos por você, sem qualquer imposição destas forças, para lhe fazer consumir e ao mesmo tempo monitorar seu pensamento, descobrir quem você é, seguir seus passos…
 
Outra questão que precisa ser pensada, a despeito das conquistas e realizações destacadas por Don Tapscott, é a das ações e realizações fora da web e do universo virtual. Quantas horas por dia dedicamos aos computadores e a internet? Não se trata especificamente, neste caso, da contabilidade de horas diante das telas e softwares, mas do tempo que nos resta para o mundo real, onde estão nossos pares (famílias, amigos, colegas de trabalho…).
 
Não digo com isso que deixemos de trabalhar com estas máquinas incríveis que remodelaram o mundo e reorientaram nossas ações e modo de vida, mas que sejamos capazes de ponderar nossas ações, agindo de forma a não nos perdermos na rede em detrimento do que ocorre  fora deste universo virtual. 
 
Como fazer isso? O primeiro passo é mapear as ações e perceber em nosso cotidiano quantas horas estamos diante de computadores, tablets ou smartphones e, por outro lado, qual a quantidade de tempo que disponibilizamos para as pessoas ou para ações externas ao virtual. Tendo feito este cálculo, veja se sua curva de tempo pende mais para o virtual (incluindo aí as ações profissionais, por exemplo, no escritório, fábrica ou repartição, diante do computador) e programe-se (por mais irônico que pareça a utilização deste termo neste trecho do texto) para que as demais horas de seu dia sejam dedicadas a você e ao mundo real. Não é tão difícil quanto parece e vale muito a pena!
 
Por João Luís de Almeida Machado

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