A ditadura da felicidade

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“Na carreira, assim como na vida, não dá para ser bem-sucedido sempre. Por mais que tomemos precauções, às vezes, fracassar é inevitável. Se você parar para pensar, vai perceber que na natureza, no mundo, nas empresas, em tudo, enfim, fracasso e sucesso se alternam indefinidamente. Quem também tem essa visão é o astro americano Jack Nicholson. Em 2004, após receber o Oscar de melhor ator pelo filme Melhor é impossível, Nicholson ouviu de um repórter a seguinte pergunta:
– E agora, o que você espera de seu próximo trabalho?
Ele sorriu e respondeu:
– Sabe como é a vida: montanhas e vales. Eu espero um monumental fracasso.”

(DOMINGOS, Carlos. Oportunidades Disfarçadas.Editora Sextante: 2009)

É verdade, não é mesmo? Triunfos e derrotas fazem parte do nosso caminho, hoje e sempre. Não há ser humano que tenha passado por esta Terra que possa dizer que viveu apenas vitórias e, nem tampouco, alguém que, por outro lado, tenha como identificar sua existência como uma coleção de derrotas.

De uns tempos para cá, não sei precisar ao certo, mas penso que isto começou lá pelos anos 1980, com os Yuppies e sua desenfreada busca por lucros nas bolsas e demais investimentos, aprofundando-se como fenômeno (e crise) a partir da década de 1990, com o advento e consolidação da Era da Informação, passamos a viver uma realidade onde o erro, o problema, a dificuldade e o insucesso se tornaram uma chaga que deve, a qualquer preço, ser dizimada…

É, estabeleceu-se a cultura do êxito permanente, não podemos mais errar, falhar é sinônimo de fraqueza… Está em vigor, desde então, a configuração e afirmação daquilo que algumas pessoas estão chamando de Ditadura da Felicidade. A ninguém é permitida a tristeza e, por conta disto, é cada vez maior o consumo de anti-depressivos, a realização de plásticas, o consumo desenfreado, o apetite insaciável e, além disso, a cobrança sem limites…

Vitória, vitória ou vitória, a qualquer custo… Mesmo que isto esteja custando nossa sanidade e saúde física… Não sou saudosista, mas às vezes chego a pensar que éramos felizes e não sabíamos. Vimos o advento de tantos e tantos recursos, a humanidade jamais viveu tamanha prosperidade material, o mundo hoje vê com maiores preocupações os excessos do que as carências (alimentares, materiais…).

Apesar disso tudo, que a princípio poderia ser considerado bom para todos os que hoje habitam o planeta, a infelicidade e a insatisfação aumentaram e, as pessoas, para compensar estão buscando saídas em bens materiais, serviços e benesses que não resolvem as dificuldades, apenas as atenuam, é como combater câncer com aspirina…

Permitir-se chorar, gritar, espernear e sofrer ou ainda entender que o erro, a falha e as dificuldades são parte da vida é algo que precisamos fazer e, de preferência, com naturalidade e compreensão, tanto nossa quanto das demais pessoas com as quais vivemos… Lembram-se da música do Chico Buarque, a famosa Gota d’água, em que ele falava sobre a necessidade de extravasar, de deixar sair do fundo do coração o grito de dor, de mágoa, de derrota e sofrimento?

Pois é… Chico tinha razão, mas parece que não aprendemos com ele… Antes que seja tarde, é preciso que comecemos (de novo) a nos permitir o erro, a falha, a dor, a tristeza… E, com isto, crescer, amadurecer, aprender, viver fora desta Ditadura da Felicidade…

Por João Luís de Almeida Machado

2 thoughts on “A ditadura da felicidade

  1. Há dias queria tempo para ler e comentar esse post…
    Finalmente esse dia chegou!
    É interessante como essa sociedade que nos impõe tantas obrigações como levantar, trabalhar, escovar os dentes, fazer atividades físicas, nos relacionar…tbm quer que tudo ocorra sem falhas, titubeios e em muitos casos fracassos. Mas será mesmo possível?
    Ainda outro dia lia se vc preferiria a viver ou ser feliz. E eu lembro de ter dito que preferia a vida: o que significa dizer que há ondas com momentos que vem e que vão de felicidade alternadas com tristezas…nem sempre tudo corre bem. A felicidade linear e constante é utopia e absurda se colocada no plano do real.
    Impossível não lembrar nesse ponto do grande poeta Pessoa pelas linhas de seu heterônimo Álvaro de Campos no “Poema em Linha Reta”. Lembram-se? Transcrevo-o:

    “(…) Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
    (…)”

    Abs e quem sabe possamos viver apenas como mortais…

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