Francisco e os novos soldados de Cristo

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A Jornada Mundial da Juventude permitiu ao mundo conhecer melhor o Papa Francisco. Seu sorriso largo, disposição infindável, capacidade de inspirar e ideias claras quanto aos temas trabalhados em seus discursos representaram para todos a possibilidade de ver no horizonte novos e promissores anos para o catolicismo mundial.

O encontro no Brasil foi um sucesso de público e crítica, mas pecou (sem trocadilhos) quanto a organização. Ainda que o próprio Francisco quisesse ter contato mais direto com os fiéis, a segurança foi falha e isso poderia ter ocasionado problemas sérios. Os gastos para a missa não realizada em Guaratiba, ainda que responsabilidade da Igreja, foram em vão. As chuvas tornaram inviável a celebração do culto naquela localidade do Rio de Janeiro e tudo teve que ser transferido para Copacabana.

A praia mais famosa do mundo, por sinal, quebrou recordes de público, chegando a receber mais de 3 milhões de pessoas. Tal fluxo de visitantes somente comprova o quanto as pessoas estão sequiosas da fé que acolhe, orienta, ensina e lhes permite protagonismo em prol de paz, amor, solidariedade, fraternidade, caridade e bondade. O acúmulo de más notícias pelo mundo afora, como o desemprego, a pobreza, a corrupção, as guerras, as doenças, a fome, o analfabetismo e as graves questões ambientais não encontram resposta na ação dos políticos e de organizações públicas ou privadas e as pessoas clamam por ações mais efetivas.

O Papa as conclama, em especial os jovens, os novos Soldados de Cristo (os jesuítas de Inácio de Loyola, ordem a qual pertence o Papa Francisco, que foram assim chamados quando surgiu esta ramificação católica, no século XVI, para evangelizar a América e outros continentes e conter a perda de fiéis ocasionada pelo surgimento das religiões protestantes).

O compromisso desta nova igreja é o de estar junto aos fiéis, buscando trazê-los para as missas, fazendo com que participem e, em especial, que levem adiante os ensinamentos de Cristo e de seus apóstolos. Francisco está convicto desta necessidade e, a partir de seu próprio exemplo, quer tirar padres e bispos da zona de conforto e acomodação, fazendo com que evangelizem na prática, juntamente a comunidade, nas ruas, como o próprio santo padre fez em sua visita ao Brasil.

A espiritualidade é um compromisso e esteve presente em todos os seus discursos. O exemplo de Cristo ao se sacrificar pela humanidade foi abordado em vários encontros do Papa com os fiéis e religiosos. A devoção e fé de Maria igualmente foram exaltados em diferentes momentos. A visita a Aparecida foi certamente um dos capítulos de maior prova de comprometimento com os valores da Igreja por parte de Francisco e de todos os que participaram da Jornada. A imagem do Papa diante de Nossa Senhora Aparecida mostrou Francisco compenetrado, em oração, a pedir-lhe força e proteção para ele e todos os cristãos do mundo.

Levar adiante esta espiritualidade passa, no entanto, por mobilizar a messe e, em especial os jovens, de corpo e espírito, a se posicionar contra as injustiças do mundo material. Francisco não foi, em momento algum, condescendente com os políticos e com a voracidade do capitalismo globalizado. Criticou a corrupção e a cultura da eficiência a qualquer custo. Deixou claro que é preciso agir com maior solidariedade, preservar o ser humano, promover as pessoas e que isso passa necessariamente por dar a todos oportunidades, acesso a educação, a saúde, ao emprego, a segurança, a cultura…

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O Papa está consciente não apenas dos problemas que ocorrem fora do âmbito da Igreja. Reconhece as falhas ocorridas no interior da própria cúria romana, relacionadas a questão do desvio de verbas no Banco do Vaticano ou dos casos de religiosos pedófilos. Está agindo no que tange a isso com energia, levantando os erros e fazendo com que os responsáveis paguem por eles.

A nova postura do pontífice fica evidente também quanto a forma como se relaciona com outras igrejas, mostrando-se disposto e aberto ao diálogo que integra, aproxima e estimula relações de paz, respeito e cooperação. Ao ser questionado pelos repórteres quanto a outra questão difícil para os católicos, a homossexualidade, Francisco foi igualmente renovador ao afirmar que não cabe a ele julgar, mas abrir-lhes a possibilidade de vir de encontro a Igreja se assim desejarem.

Politicamente o Papa mostrou-se bastante hábil para que seus posicionamentos fossem ouvidos tanto por quem estava na orla de Copacabana e por todo o mundo católico quanto pelos próprios líderes mundiais. Ecoou pelos quatro cantos do mundo e chegou aos ouvidos de presidentes e líderes a sua pregação por maior responsabilidade e ética no combate a pobreza e na busca por uma vida mais digna a todos os cidadãos, sem demagogia ou hipocrisia dos governantes e demais lideranças estabelecidas.

Carismático, encantador, vibrante e até mesmo inebriante, o Francisco veio para fazer história como o Papa do Novo Mundo.

Obs. Cabe ainda um elogio e reconhecimento a Bento XVI, de grande coragem, humildade e sabedoria, que ao renunciar abriu mão do pontificado sendo capaz de não apenas nos legar Francisco, mas de demonstrar desapego ao mais alto cargo na hierarquia cristã, reconhecendo sua impossibilidade física e se propondo a realizar aquilo que melhor sabe fazer em prol da cristandade, ou seja, rezar e estudar. O alemão Joseph Ratzinger, nome original de Bento XVI, é reconhecido como um dos mais notáveis teólogos e estudiosos do século XX.

Por João Luís de Almeida Machado

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