Seu filho acha a escola chata?

ImageO perfil multitarefas das novas gerações e os conflitos destes estudantes do século XXI com escolas que não os tornam protagonistas e não os desafiam

Segundo o projeto pioneiro de John Goodlad, A Study of Schooling, que envolveu pesquisadores numa observação em mais de mil salas de aula em todo o país, quase 70% do tempo em sala de aula era gasto em falas de “professor” – principalmente professores falando “para” alunos (dando instruções, fazendo apresentações expositivas). A segunda atividade mais amplamente observada foi a tarefa escrita dos alunos e, segundo, Goodlad, “grande parte deste trabalho era na forma de responder a diretivas em livros de exercício ou folhas de resposta”. [ARMSTRONG, Thomas. Inteligências Múltiplas na Sala de Aula. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2001]

Esta escola é aquela na qual, neste exato momento, seu filho provavelmente está sentado, escutando o professor ou então se preparando para realizar exercícios escritos. Na realidade, com a guinada conservadora observada nos últimos anos na educação mundial, ocorrida em função das alterações globais que preconizam a necessidade da competitividade e da eficiência como fatores fundamentais para a entrada no mundo do trabalho, passou inclusive a ser a meta, o objetivo ou mesmo o sonho de muitos pais…

Imagine-se então no lugar de seu filho. Passe 4 ou 5 horas sentado numa cadeira tendo que escutar alguém falando sobre equações, paisagens, guerras ou concordância verbal sem ter muito espaço para se articular, questionar, posicionar-se, buscar espaços nos quais consiga, literalmente, respirar. Durante alguns breves momentos você perderá a concentração e ao invés de estudar irá mexer em seu celular, quem sabe fazer algum desenho no seu caderno ou mesmo adentrar o mundo da lua, tirando o foco completamente do que acontece ao seu redor.

Depois de algum tempo seu corpo se sente desconfortável. Você tem vontade de se levantar. Quer dar uma voltinha, sair daquela sala de aula. Só pode fazer isso se pedir para ir ao banheiro ou tomar água. Ainda que não esteja com vontade de fazer isso, acaba pedindo “água” daquela aula e, se houver anuência do professor, se retira por alguns breves minutos, com tendência a tentar esticá-los ao máximo, o quanto der…

Se não bastasse isso, o perfil multitarefas (multitasker, conforme o termo originalmente cunhado em língua inglesa) da atual geração, plugada em computadores, celulares, TVs e ao mesmo tempo escutando música, fazendo suas tarefas escolares ou jogando videogames faz com que a escola lhes pareça um local de aborrecimentos, de monotonia ou mesmo de desconforto, insatisfação, ou seja, chato e desagradável.

E as aulas? Com tanta matéria sendo dada oralmente, o que de fato fica?

Me lembro quanto a isso da metáfora utilizada por Rubem Alves para descrever o que pensa a respeito de tantos conteúdos sendo apresentados nestes procedimentos conteudistas baseados em sua maior parte do tempo em aulas expositivas. Nos diz o sábio educador que é como passar o macarrão no escorredor logo depois que foi fervido. A massa permanece, mas o líquido, ou seja, o entorno que deveria permanecer como parte dos conteúdos, escorre…

É claro que no caso gastronômico de preparação de um macarrão o que se espera é que fique apenas a massa. Na escola, o que se apreende de fato, é muito menos do que deveria ser compreendido, fixado, trabalhado, aprendido… E entre estas palavras todas que descrevem o que teria que acontecer, todas importantes, é fato, devemos destacar o termo “compreender”. O ensino só tem sentido se houver sentido, significado e o real entendimento de como estes saberes poderão ser úteis aos alunos depois que se formarem.

O sentido de utilidade dá aos conteúdos e saberes trabalhados para o aluno a motivação inicial para o aprendizado. Aprender simplesmente por aprender, desvinculado da realidade, da ideia de que o que está sendo ensinado poderá ser utilizado durante outros momentos da vida e não somente na escola, na resolução de exercícios ou tarefas é um mote importantíssimo para os educadores.

Pode-se dizer que a vida adulta hoje, num mundo onde os serviços (o setor terciário da economia) suplantou as ações de caráter mais prático, físico e imediato como aquelas realizadas na indústria ou no agronegócio, o que se espera é que as pessoas trabalhem em computadores, sentados durante todas as horas de seu expediente e que, de certo modo, a escola já está preparando os alunos para isso… Irônico, não é mesmo, ainda mais se pensarmos no processo de crescimento e alterações fisiológicas, hormonais pelas quais passam as crianças e os adolescentes… Com toda esta energia pulsando, ficar amarrado a uma mesa, ouvindo os professores durante algumas horas pode ser muito improdutivo… É preciso repensar os processos!

Isso não significa que iremos reinventar a roda, ou a própria escola, por assim dizer. Na verdade, igualmente não representa o fim ou o ocaso das aulas expositivas e do trabalho com conteúdos, basilar para a educação desde que a mesma se assentou sobre as bases contemporâneas que hoje temos. É preciso que as escolas encontrem alternativas e processos pedagógicos que trabalhem no sentido da utilização da energia dos alunos, contando com o apoio dos vários recursos materiais e tecnológicos que estão disponíveis e atuando dentro de linhas pedagógicas que estimulem, coloquem o aluno para atuar em parceria com os professores, como reais construtores de seu saber a partir da orientação de seus mestres.

Repensar a escola e seus processos pedagógicos é um exercício constante, uma necessidade vital para as escolas e, além disso, representa valorizar a dinâmica pela qual a humanidade e a própria educação vêm se mantendo vigorosas há tantas décadas, ou seja, pautando-se em reflexões que lhes permitam rever seus passos, aperfeiçoar seus procedimentos e, com isso, melhorar seus resultados, principalmente, fazendo sentido para quem aprende e também para quem ensina…

Por João Luís de Almeida Machado

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