Pelo buraco da fechadura e bits da internet: Snowden e a espionagem norte-americana

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Imagine-se na seguinte condição: Você descobre que todas as informações sobre você, seus familiares, amigos, colegas de trabalho e de toda a nação estão sendo, a sua total revelia e completo desconhecimento, vasculhadas pelo governo de seu país ou por uma nação estrangeira. Como descobriu isso? Começou a trabalhar para uma agência governamental e entre suas incumbências estava aquela de diariamente analisar e-mails, dados de redes sociais, telefonemas e todo o tipo de informação que circula pela rede mundial de computadores ao lado de milhares de outros profissionais da informação.

Passados alguns meses e o choque inicial, ao invés de continuar dormente na bolha informacional em que se encontra, descobrindo desde dados de real importância para o governo até que tipo de pasta de dentes usa o seu vizinho ou quem era aquela mulher com quem seu primo se encontrou às escondidas da esposa num restaurante a milhas de distância da cidade onde vive, você começa a questionar o caráter ético da atividade.

Há, é claro, todo um discurso relacionado a patriotismo, defesa da democracia, valores liberais incensados todo o tempo. O mundo ameaçado pelo terrorismo proveniente das mais distintas áreas, do radicalismo islâmico aos traficantes de drogas dos carteis latino-americanos. O tráfico de mulheres ou a venda de órgãos podem ser desvendadas a partir desta espionagem e, como tal, somente isso, ou seja, o desbaratamento de uma quadrilha que vende armas ilegalmente ou que negocia crianças já justificaria todo o trabalho.

Mas não se espionam somente os bandidos, já conhecidos ou sendo investigados, em suas ilicitudes. É preciso saber mais, ir além, penetrar no cotidiano de gente comum, do próprio país ou de outras nações. As bombas podem estar sendo fabricadas pelo seu vizinho que trabalha numa linha de produção de indústria química local. As manifestações populares que desestabilizam o governo apoiado pelo país do outro lado do mundo começam no computador de algum jovem de 16 ou 17 anos inconformado com a corrupção. Quem é ele? Com quem está conectado? Como conseguiu ter alcance e repercussão?

Não importa se suas manifestações são legítimas e próprias da realidade do país onde vive. Não se quer saber se o operário da indústria química é honesto e paga suas contas em dia. O que se persegue é a falha mínima. A menção ao que é ilícito. A ação que de alguma forma contradiz, contraria ou se opõe aos karmas dominantes do cenário global. Se existem, mesmo que numa casa de classe baixa ou média no interior do Brasil, da Indonésia ou da Austrália, esta informação deve chegar aos órgãos que regulam a segurança nacional, ou melhor, mundial. A polícia do mundo tem que conter tudo aquilo que de alguma forma entende como agressão aos interesses dominantes, de quem manda no mundo.

E você descobriu isso. Racionalizou as informações e chegou a conclusão de que sua vida e a de milhões ou bilhões de pessoas está sendo devassada todos os dias. E que você, para piorar, está sendo cúmplice. Para você há uma crise de consciência. Há uma contradição entre o que tais governos e seus líderes apregoam e o que você vive em seu trabalho de espião virtual, ao lado de tantos outros.

E você decide dar um basta em tudo isso, escancarando a rede de informações que espiona o mundo inteiro, ainda que saiba os riscos que isso implica e que sua vida nunca mais será a mesma, até consciente de que sua vida pode durar pouco a partir do momento em que desnude todo este esquema invasivo a privacidade de milhões de pessoas, instituições privadas, governos…

Foi isso que fez Edward Snowden… E por isso ele tenta asilo temporário na Rússia como ponte para chegar a alguma nação latino-americana (Venezuela, Bolívia e Nicarágua se ofereceram para recebê-lo) que o acolham como asilado político e atual inimigo número um dos Estados Unidos… Para ir de um país a outro não consegue pois as nações (pressionadas pelos EUA) estão bloqueando o espaço aéreo e chegaram ao cúmulo de não permitir a passagem de um chefe de estado (Evo Morales, da Bolívia) sobre seus países por acharem que Snowden estaria escondido em seu avião presidencial.

O que Lincoln, Jefferson e Washington, entre outros artífices das bases democráticas norte-americanas pensariam sobre isso? Snowden virou traidor de acordo com as autoridades de seu país e sua cabeça está a prêmio. O motivo? Ele veio a público e teve coragem de escancarar que seu país estava espionando milhões (ou seriam bilhões) de pessoas do mundo todo…

Por João Luís de Almeida Machado

One thought on “Pelo buraco da fechadura e bits da internet: Snowden e a espionagem norte-americana

  1. Eu estranho demais toda esta indignao… Sei de todo tipo de coleta de informaes, utilizando cookies, desde que a internet surgiu… Alis, todos os meus alunos na universidade sabem da pesquisa de marketing feita em cima dos cookies… H s uma justificativa, e uma explicao….A tentativa dos governos para eliminar a internet… Eles ganham muito com isso…

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