“É pra ontem”

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Talvez a melhor expressão para explicar os dias de hoje seja a tradicional e popularesca “é pra ontem”. Sempre vivemos de forma apressada a partir do advento do industrialismo, entre os séculos XVIII e XIX. Com o passar dos anos e décadas, a velocidade só fez aumentar. Diziam que era tudo fruto do progresso, ou seja, com o advento dos trens, do motor a combustão, de automóveis, transatlânticos, aviões e demais modernidades relativas ao deslocamento, seríamos herdeiros de um futuro de comodidade, luxo, conforto. As invenções que revolucionaram as comunicações também, igualmente, contribuiriam para nosso bem estar, iniciando-se este ciclo com o telégrafo, as prensas que permitiram o surgimento de diversas publicações, o telefone, os serviços de correios e, é certo, mais recentemente, os celulares e os computadores plugados a internet.
Certamente a sensação inicial que tivemos, de evidente empolgação, fez com que tudo fluisse ainda mais aceleradamente rumo a consolidação do universo regido pelas leis do “é pra ontem”. Fomos engolidos pela sensação de atemporalidade, ou seja, a de que estamos hoje, sem fronteiras físicas e de tempo, ligados pela velocidade, tanto ao futuro quanto ao passado, sem possibilidade de rever esta condição a não ser que tenhamos o ímpeto, a coragem e, para muitos, a imprudência (ou a loucura) de romper com o que nos cerca… O que novamente me faz lembrar de Neo, Morpheus, Trinity…
Creio que não tarda o dia em que serão criadas as leis que regem o mundo do “é pra ontem”… Pode parecer apenas ironia da minha parte, mas certamente, isto já está em curso, querem ver?
O artigo 1º deste código legislatório iria dispor para todas as pessoas o compromisso de disponibilidade praticamente total para fins profissionais e/ou sociais (dependendo do tipo de estrutura social ou modo de produção estabelecido). Não é muito diferente do que já vemos hoje em dia com o estabelecimento das redes online e telefônicas que fazem com que as pessoas vivam plugadas 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano…
O artigo 2º viria complementar esta obrigatoriedade estipulando que a todos seria concedido o “direito” de ter aparelhos e equipamentos que os conectassem com o mundo… E todos nós olhamos para a “inclusão digital” como um benefício, não é? Será que há apenas benesses por trás de toda esta conexão a que somos submetidos? É assunto para se pensar, ainda mais quando vemos que a educação no Brasil e no mundo tem como foco a preparação para o trabalho e, também para a cidadania, mas o que há de preparação para a autonomia nestes procedimentos educacionais do século XXI?
O artigo 3º começaria a estipular que para participar desta sociedade e de suas possibilidades, seria imprescindível ter formação e prática de uso das tecnologias de informação e comunicação… Quem não tiver tais pré-requisitos de que modo poderia participar da velocidade deste mundo do “é pra ontem”?
O artigo 4º certamente iria propor que socialmente quem não estiver apto por não conhecer as ferramentas da modernidade tecnológica que aceleram a vida terá que ser submetido a processos de formação que os adeque a esta realidade… Atualização profissional, reengenharia social, reciclagem das pessoas (termo em desuso, mas que certamente caberia bem nesta situação…).
O artigo 5º, para finalizar, iria definir que todos aqueles que se recusassem a participar desta ordem seriam punidos por esta insolência e desobediência civil… Afinal de contas, não “usufruir” das benesses da modernidade tecnológica, representaria insanidade e, a estes, apenas duas possibilidades… A cadeia ou o manicômio…

 Por João Luís de Almeida Machado

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