Transgredir

ImageNos anos 1950, com James Dean e Marlon Brando, a transgressão virou moda. A jaqueta de couro, com calça jeans, camiseta branca eram símbolos de uma nova juventude, cansada de modelos a serem copiados. Não queriam mais ser como seus pais. Lutavam contra imposições dos adultos. As roupas, a moto e, principalmente o comportamento queriam mostrar essa atitude diferente, própria, com a cara e assinatura destes jovens rebeldes.
A juventude transviada mudou de rumo nos anos 1960. Veio Woodstock. Sexo, drogas e Rock and Roll. Contestava-se de tudo. A alimentação tóxica, a repressão sexual, a educação conformista, a política corrupta, as regras, a coerção, o consumo desenfreado, a guerra… Todos os temas e cada um deles a nos mostrar como o Sistema estava corrompido e, por isso, vivia-se uma intensa (e perigosa) busca por alternativas a todas as camisas de força que o mundo imputava a todos de modo consciente e, na maioria dos casos, inconsciente.
Quando os ícones começaram a morrer, no auge de sua juventude e contestação, transgredindo as regras e tentando burlar o sistema e suas amarras, fosse na luta armada, em concertos de rock, através da literatura ou na música, a ‘viagem’ então iniciada perdeu um pouco o sentido, a força e, esvaiu-se.
A transgressão foi aos poucos sendo domada ou vendida a preços variáveis (algumas a custo de bananas, outras a peso de ouro). Nunca deixou de existir, mas após a década de 1970, com a crise do petróleo, a busca por recursos, o consumismo, a mídia e o marketing poderosos se estabelecendo de forma onipresente, a estrutura familiar se desfazendo, novos modelos sociais se impondo e tantas outras mudanças significativas, abandonamos a visão da luta, do coletivo, do social e nos empenhamos mais em tocar nossas vidas.
Busca-se, desde então, conforto, comodidade, segurança, estabilidade. A transgressão continua a existir, na mente e ação de pessoas e grupos. Perdeu a vitalidade. Tentou se adaptar aos novos tempos. De mercados poderosos a definir investimentos da noite para o dia, em que os yuppies surgidos nos anos 1980 deslocam seu capital de Londres para o Rio de Janeiro, de Nova York para Bombaim ou de Paris para Pequim em questão de segundos através dessa poderosa força que se estabeleceu com as novas tecnologias.
A nova transgressão se vê em ONGs que lutam pelo meio-ambiente, contra as guerras, pela saúde pública, por educação de qualidade, em prol de crianças de rua ou de idosos abandonados por seus familiares… São como Davi a afrontar Golias. Algumas se tornaram grandes e poderosas e, como na Revolução dos Bichos de Orwell, ao invés de utilizarem isso a seu favor, acabaram ficando mais parecidas com os ‘porcos’ que tomam conta da fazenda daquele célebre conto futurístico tão próximo do que hoje vivemos.
As ruas brasileiras em 2013, com as mobilizações populares, em que jovens, trabalhadores, idosos, crianças, prestadores de serviços, professores, profissionais liberais e tantos cidadãos empunham cartazes, cantam o hino nacional, pintam seus rostos de verde e amarelo a se manifestar de forma pacífica contra a impunidade, a corrupção, a baixa qualidade dos serviços públicos, os preços das passagens de ônibus, os gastos excessivos com a Copa e tantos outros temas é igualmente exemplo vivo da transgressão.
A atitude de transgressão em muitos casos deixou de ser compreendida como aquela do sujeito que contesta com argumento, ideias, propostas, em busca de algo melhor, de um mundo mais justo. Em seu lugar surgiram, infelizmente, alguns que pensam na violência como sinônimo da transgressão. Advogados e realizadores da dor e da porrada como meios de insurgência contra tudo o que lhes ofende, oprime ou revolta.
Mas, o que seria, em linhas gerais o transgredir? O que compõe esta atitude? Em que consiste esta ação?
Transgredir é opor-se, colocar-se em outra trincheira, assumir diferentes pontos de vista, ter atitude clara, pensamento ordenado, não sujeitar-se e, sempre, em qualquer instância, lutar por causas justas. Significa olhar para o outro, ao qual se contrapõe, com ideias e ações, não como um inimigo, mas como alguém que pensa e age de outra forma, respeitando o sujeito, o indivíduo e não o encarando como alguém contra quem se fará qualquer coisa, se fará de tudo para vencer.
Não há quedas de braço. Quem transgride assim age por motivações que lhe são claras. Luta contra amarras do sistema ou por causas aparentemente menores, mas é acima de tudo um espírito livre, desimpedido, que não se acomoda em modelos mentais vigentes, que não se submete a nada que ofenda o espírito humano e seus mais altos valores.
Não age de forma mesquinha porque não tem como propósito a autopromoção ou valorização pessoal. Este transgredir tem causas que movem muitas pessoas, que tem sentido social, que é coletiva. Por isso mesmo, não se pode confundir este ‘transgredir’ com a simples quebra de regras de conduta social, com a violência, com o crime banal de rua ou mesmo com as instituições criminosas que atuam nos meandros da sociedade.
Estes transgressores se opõem a destruição do meio-ambiente, as guerras do petróleo, as corporações sedentas por lucro e que atuam contrariamente aos interesses do planeta, as políticas que empobrecem as populações, aos sistemas de saúde e educação que não atendem os interesses da maioria… Estes são os verdadeiros transgressores. Isto é o sentido real do transgredir que vimos e vemos em figuras como Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Che Guevara, Madre Teresa de Calcutá, Paulo Freire e tantos outros homens e mulheres que levaram o mundo a ser melhor do que era antes de sua passagem por esta terra!
Por João Luís de Almeida Machado

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