Escola: O que é isso?

ImageTenha em mente que tudo que você aprende na escola é trabalho de muitas gerações. Receba essa herança, honre-a, acrescente a ela e, um dia, fielmente, deposite-a nas mãos de seus filhos. [Albert Einstein]

Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda. [Paulo Freire]

Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. [Rubem Alves]

A pergunta parece tão óbvia que nem merece a atenção de alguém, não é mesmo? Por isso é que se faz necessária e urgente, como já nos ensinava Darcy Ribeiro em seu conhecido texto “Sobre o óbvio”. Quando algo parece muito evidente significa que já há um conceito ou uma ideia vigente a respeito e que, ao predominar, de algum modo cega a todos e impede que busquem novos significados, ampliem a compreensão, questionem e procurem alternativas que respondam de forma mais satisfatória a toda a sociedade.

No dia 15 de março se comemora o Dia da Escola, sendo assim, nada mais adequado do que refletir e buscar na realidade, e no que pensam especialistas no assunto, o que entendemos quanto a esta instituição.

Para começo de conversa, é preciso delimitar historicamente a existência da escola e estabelecer que seu surgimento, nas bases que hoje utilizamos e conhecemos, ocorreu dentro do contexto da Era das Revoluções, conforme assim a identificou o célebre historiador inglês Eric Hobsbawn. Seu surgimento está, portanto, ligado à ascensão do modo de vida burguês ocorrido entre os séculos XVIII e XIX, principalmente tendo a França revolucionária como base.

A instituição que hoje conhecemos opera (a princípio), em estados democráticos de direito, dentro de bases operacionais como as que seguem: visando atender ao interesse público; sem distinção ou discriminação de qualquer natureza; financiada e fomentada pelo poder público estabelecido; juridicamente reconhecida como direito e elemento de acesso à cidadania; objetivando tornar acessíveis os conhecimentos e saberes considerados importantes para o corpo social; enquanto elemento de preparação para a atuação no universo do trabalho e na política; no intuito de também inserir social e culturalmente os alunos as comunidades em que vivem; e ainda, como elemento desencadeador de ações e práticas éticas em favor de todo o corpo social.

Este conceito inicial dá apenas uma amostra daquilo que depois acaba se configurando e que, certamente, é muito mais complexo. A escola é entendida, num primeiro momento, como espaço de formação em relação ao qual existe respaldo social e para o qual se enviam as crianças, desde tenra idade, ingressando ainda na educação infantil, para que ali permaneçam por alguns anos (no Brasil espera-se que cumpram no mínimo até o final do Ensino Fundamental e as políticas públicas, assim como a sociedade de forma geral, incentivam a continuidade destes estudos e a entrada destes alunos em etapas posteriores de formação, como o Ensino Médio, o Ensino Técnico e a Universidade).

A concepção dominante, culturalmente estabelecida, percebe a escola como imprescindível justamente porque permite aos educandos que entrem em contato com todo o conjunto de saberes essenciais que permeiam as relações sociais. Na escola se aprendem conteúdos como matemática, línguas, história, ciências, artes, geografia, educação física – assim o pensa a maioria das pessoas. Mas estas disciplinas não se encerram nas fórmulas, cálculos, fatos, conceitos ou estruturas gramaticais como a princípio se pressupõe. Todos estes saberes são plataformas que uma vez aprendidas pelos alunos os habilitam a pertencer e participar socialmente, com direito, é claro a escolhas em relação aos espaços que irão ocupar no mundo.

A escola, neste sentido, é uma instituição de grande interesse social que pode (ou não) dar asas e suporte para o voo dos alunos que passam por suas salas. Este poder é a ela atribuído pela própria sociedade, a partir da ação de seus representantes (que dão eco, ou não, aos apelos sociais ou ainda que, muitas vezes, atuam mesmo de forma a contradizer tais objetivos e metas da sociedade). Neste momento, por exemplo, de inserção de tantas novas ferramentas de informação e comunicação no mundo inteiro, é comum que se questione a eficácia e/ou mesmo a necessidade da escola, ao menos dentro do modelo estático, convencional e conservador que em muitos casos ela ainda mantém.

As dúvidas quanto ao papel da escola neste mundo de tecnologias que informam de modo tão eficaz e rápido, como nunca antes na história da humanidade, levam pessoas e famílias inteiras a desacreditar a instituição e, mesmo, a tirar seus filhos das salas de aula para que as eduquem em casa, como acontece em maior escala nos Estados Unidos e em movimento que já chegou ao Brasil e fere preceitos constitucionais por aqui.

A questão não é se as escolas devem ou não continuar existindo e prestando seus serviços, mas sim o modo como isso acontece. A informação está em todos os cantos, mas torná-la inteligível, compreensível, transformando-a em conhecimento que ofereça ao aprendiz a condição de, tendo aprendido estes saberes, vir a utilizá-lo em prol de um mundo melhor é o que se persegue.

Não basta simplesmente ter acesso à informação, ser capaz de ler as letras e palavras e, sim, ter a condição de fazer com que – desta leitura de palavras, imagens ou qualquer outro dado colocado ao alcance dos olhos de quem lê – se construam pontes, se ergam hospitais, se preserve o meio-ambiente, se descubra a cura da AIDS, se extirpe a fome do mundo, se supere a violência na relação entre as pessoas, se estimule a tolerância, se ofereçam mais formas dignas de viver para todas as pessoas…

A escola de hoje precisa estar articulada em salas de aula que sejam críticas, colaborativas, criativas, solidárias, incentivadoras do intercâmbio, conectadas culturalmente, democráticas quanto aos discursos que nela se realizam e que socialmente devem repercutir, aprendente (e não apenas espaço onde se processam saberes prontos), capazes de ouvir ao mesmo tempo em que comunicam, usuárias dos novos e também dos tradicionais recursos e metodologias de aprendizagem, integradas a sociedade…

Fernando José de Almeida, filósofo e professor da PUC-SP, afirma que “é função da escola fazer com que o tamanho dela pareça menor quando se alargam os horizontes do aluno em relação ao conhecimento das Ciências, da literatura, da História, da Geografia. Quando faz isso, ela leva o jovem a ter coragem de participar e de caminhar com suas pernas pelo amplo mundo que o cerca! Quanto mais cumpre sua missão de ampliar os espaços de participação, mais a escola se encolhe, pois o aluno cresce em capacidade de ver e criar horizontes espaciais mais ousados e próprios”.

Esta escola, portanto, continua sendo imprescindível e, diria, até mesmo muito mais necessária do que antes para que possamos ser capazes de não apenas reproduzir o cotidiano ou apenas sobreviver, mas ir muito além na realização de um universo mais fraterno, solidário, tolerante, justo, digno, cidadão e ético.

Por João Luís de Almeida Machado

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