Direitos Humanos: A exceção e a regra

Quando as exceções parecem ser a regra, e o descaso e a omissão imperam, é preciso rever o mundo em que vivemos. Os Direitos Humanos deveriam fazer parte do currículo escolar desde a educação infantil. Igualmente deveria ser realizado desde a mais tenra idade trabalho de sensibilização, com todas as crianças sendo preparadas, desde bem pequenas, para aspirar e viver em cooperação, harmonia e paz.

Quando penso isto, imagino estar em contradição, pois ainda vejo, nas crianças, a pureza primordial para que por si só carreguem, em seu peito, a chama da compreensão, da fraternidade e do amor. Sendo assim, por que deveríamos trabalhar com os pequenos conceitos e ideias que parecem por demais abstratas e que, certamente, já estão naturalmente incutidas neles?

Talvez porque o que trazem em seu coração esteja, aos poucos, ainda muito cedo em suas vidas, sendo corroído pelas dolorosas e vis imagens e fatos, acontecimentos e histórias (próximas ou distantes) que lhes arrebatam tal candura…

Nas ruas, esquinas e avenidas vemos crianças desamparadas, perambulando de um canto para o outro, tentando vender balas ou, pior ainda, a si mesmas, por algum trocado que lhes garantam o pão e a sobrevivência. E o que fazemos? Fechamos os vidros, damos algumas moedas, compramos os doces ou, em casos extremos, vemos os lobos em pele de cordeiro a lhes aliciar, seduzir e violentar…

Nos canaviais, olarias e pedreiras (entre outros), estas mesmas crianças são apresentadas ainda tão pequenas ao trabalho que suas mãos, calejando rapidamente, assim como suas peles, ressecadas pelo calor e sol escaldante, desconhecem o significado da palavra infância. Algumas delas, bem-aventuradas, ainda conseguem ser encaminhadas para a escola em algum momento de suas vidas… Mas o que aprendem depois de tanto suor, dor, lágrimas e sangue a escorrer pela testa, mãos e pés descalços?

Direitos Humanos para que tal genocídio – emocional, físico, psicológico, social – não seja visto como regra cada vez mais… Como a perseguição aos negros e pardos, vítimas de discriminação e preconceito, vítimas da violência e da exclusão… E isto não é só discurso, é fato comprovado pelos números que nos dizem ser as crianças e os jovens afrodescendentes, as maiores vítimas de um sistema judiciário e policial inepto, inapto, ineficaz, brutal…

O Brasil, país de futuro, que vê a prosperidade cada vez mais como realidade e menos como ponto distante no horizonte, amanhece ainda longe de ser uma nação justa, harmoniosa e equilibrada. As vozes da oposição e dos líderes que almejam apenas que seus direitos sejam plenamente respeitados – no trabalho, na comunidade, no trato com a terra, no respeito às diferenças – são silenciadas à bala, a porrete e à pancada… E, novamente, o que deveria ser fato isolado ou exceção, parece mais com a regra…

Este mesmo Brasil que perdoa os corruptos por suas escapadelas ou atos falhos é um país em que a educação e a saúde de qualidade, direitos essenciais para garantir a dignidade e a necessária altivez, são ainda discurso eleitoral, proferido em palanque e esquecido ou tratado com desdém (irônia e risos) em faustosos banquetes depois da posse dos eleitos…

“Que país é este?”, já cantava Renato…

“Brasil, mostra a tua cara!”, já escancarava Cazuza…

Mas é só “caminhando e cantando e seguindo a canção, braços dados ou não, nas escolas, nas ruas, campos, construções”, como pregava Vandré, que iremos fazer a diferença, realizar o sonho da dignidade humana, da civilidade brasileira, desfraldando a bandeira da ética…

Então “vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, como podemos ver em Direitos Humanos, Exceção ou Regra – curta-metragem de Gringo Cárdia, parte do projeto Marco Universal, patrocinado pela Petrobras, que abre nossos sentidos para as injustiças que abundam num Brasil que cresce e quer ser potência mas que continua impávido, apesar de colosso, diante da sorte de tantos de seus filhos…

Por João Luís de Almeida Machado

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