Cartas, telegramas e e-mails para uma melhor produção textual

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Escrever é uma necessidade. Escrever bem é, portanto, um diferencial para qualquer pessoa. Como então desenvolver qualificações na produção escrita para que esta competência se torne importante aliado em seu crescimento pessoal e profissional? De que forma é possível, na escola, desenvolver ações e projetos que estimulem os estudantes a escrever mais e melhor?

O primeiro e decisivo passo para que uma pessoa se comunique corretamente através da escrita se dá na alfabetização. Etapa decisiva para que as crianças não apenas conheçam as letras e as possibilidades que ensejam a partir de seu enlace e formação das palavras. Letras, palavras e composição de ideias a partir da junção e agrupamento destes recursos nos permite colocar de forma inteligível, no papel, o registro do mundo que nos circunda. Constitui-se, portanto, e também, na memória e perpetuação da própria humanidade.

É claro que este conceito só se consolida, de fato, entre os estudantes, na medida em que se tornam mais maduros. Mas a magia dos encontros vocálicos, da letra escrita, da comunicação realizada de forma plena e competente tem que ser, literalmente, demonstrada e “vendida” para os alunos desde a mais tenra idade.

A leitura torna-se, então, referencial poderoso nesta apresentação e apreciação da linguagem escrita, pois ao mesmo tempo em que demonstra seu uso e referencia na prática seu valor, demonstra a variedade de termos, estruturas e elementos de uma forma que se revela lúdica, didática e informativa. Tanto a leitura quanto a escrita tornam-se, portanto, chaves para o conhecimento e a construção do hoje e do amanhã.

O acesso à linguagem e as possibilidades da comunicação permitidos pela leitura e a escrita estão igualmente endossadas neste universo virtual. Não é possível conceber computadores e internet sem a utilização das letras. Sua necessidade premente se faz presente até mesmo na referenciação aos instrumentos deste novo mundo, quando dizemos Tecnologias de Informação e Comunicação, pode-se perceber o estreito vínculo entre as máquinas e a linguagem, as palavras e o que elas nos permitem informar e comunicar via rede mundial de computadores.

Mas, como é possível estimular a escrita, de forma mais presente, no mundo real, nas salas de aula?

É indispensável que na escola estimule-se a percepção dos alunos quanto à presença forte, constante e necessária da linguagem letrada no cotidiano. A todo o tempo somos, de algum modo, atingidos por mensagens. Elas estão direta ou indiretamente nos cartazes espalhados pela cidade, nos jornais e revistas aos quais temos acesso, na televisão através da linguagem oral e também escrita, nos documentos que fazem parte de nossas vidas, nas embalagens dos produtos que consumimos, nas letras das músicas que escutamos, nos roteiros de peças ou filmes a que assistimos, na lousa das salas de aula, nas receitas médicas prescritas, na publicidade que permeia todos os espaços pelos quais circulamos e por aí afora.

Todas estas formas de comunicação regular encontradas pelas pessoas em seu cotidiano podem (e devem), de algum modo, inspirar projetos de leitura e produção textual.

E destas leituras podem e devem surgir ações de produção de texto, partindo-se também de elementos que tenham forte ligação com a realidade e permitam ao aluno expressar-se dentro das normas cultas ou da linguagem informal, de acordo com o que for proposto. O trabalho com elementos de comunicação direta, informal (ou formal, dependendo do interlocutor) e cotidiana, como a produção de telegramas, cartas e e-mails é, portanto, uma alternativa interessante e enriquecedora.As rodas de leitura na escola precisam ser estimuladas desde a educação infantil, de início com a contação de histórias (que não pode desaparecer mesmo nas fases posteriores, inclusive no Ensino Médio e Superior, até mesmo para que se incentive a leitura em público, com entonação, dicção, interpretação e ritmo), depois com a troca de livros, avançando progressivamente rumo a títulos clássicos e de maior complexidade na medida em que os alunos progridem.

Neste sentido é preciso organizar este trabalho para que seja significativo para os alunos. São recomendados alguns procedimentos, a saber:

– Iniciar sempre com uma definição muito clara quanto aos instrumentos de comunicação que serão a base desta iniciativa de produção textual. Isso significa, por exemplo, conceituar, exemplificar, apresentar amostragens de produções semelhantes e, mesmo, localizar historicamente o uso das cartas, telegramas e dos e-mails.

– É sempre muito pertinente e enriquecedor trazer exemplos de uso destes elementos na literatura e em outras artes, como o cinema ou o teatro. O livro “A Cor Púrpura”, de Alice Walker, é todo escrito como se fosse uma troca de correspondências entre as irmãs que protagonizam a história (o que não transparece no belíssimo filme de Steven Spielberg). A produção cinematográfica “Nunca te vi, sempre te amei”, estrelada por Anthony Hopkins e Anne Bancroft, nos coloca diante de uma história de amor consolidada a partir da troca de cartas entre um livreiro inglês e uma mulher norte-americana que adora ler.

– A produção escrita nestas diferentes formas de comunicação tem objetivos distintos e isso precisa ficar muito claro para os alunos. Há a concisão e objetividade dos telegramas, a liberdade e amplitude das cartas e a velocidade e modernidade dos e-mails. Começar do mais sintético e avançar rumo ao que há de mais moderno, representativo da junção da tecnologia com a linguagem letrada pode ser um bom caminho. Pode-se, também, trabalhar de acordo com a cronologia, ou seja, conforme o surgimento histórico destes três recursos de comunicação.

– Inicialmente é aconselhável que seja dada liberdade de escolha de temas para a produção de telegramas, cartas e e-mails. O avanço dos trabalhos pedirá que se insiram algumas temáticas, variáveis que podem ser, por exemplo, comentários sobre filmes ou livros, relatos de aulas assistidas, críticas quanto a programas de televisão, simulações de situações do cotidiano (pessoal ou profissional), criação de cartas dentro de contextos históricos ou geográficos diferenciados…

– A produção de telegramas, cartas e e-mails de caráter específico, como, por exemplo, dentro do contexto do mercado de trabalho, portanto mais formais, também devem compor o trajeto de um projeto desta natureza.

– A produção deve ser realizada como parte de projetos de curto ou médio prazo, prevendo a produção de alguns telegramas, cartas e e-mails, ou seja, o que se visa é a o aperfeiçoamento do processo de produção textual.

– Deve ser sempre realizada a correção atenta das produções, visando tanto a questões gramaticais quanto o uso de vocabulário, o estilo e adequação ao modelo de comunicação desenvolvido. As devolutivas de correção devem pedir aos alunos que não apenas atentem para as observações quanto a erros, mas também ressaltar qualidades do trabalho. Pedir a reescrita do texto para perceber a melhora é também uma prática recomendável.

– Para dar maior autenticidade ao projeto, recomenda-se que algumas das produções criadas sejam enviadas pelo correio ou pela internet como verdadeiros telegramas, cartas e e-mails, tendo o professor ou colegas como interlocutores, de modo que se vivencie a experiência destes elementos de comunicação no mundo real.

– O trabalho, como parte de um projeto, deve criar um portfólio de produções textuais que irá referenciar a evolução da produção escrita de cada aluno.

Ao final dos trabalhos, dentro dos prazos pré-estabelecidos para a realização de cada etapa, o aluno terá a compreensão e clareza dos instrumentos de comunicação utilizados, irá melhorar a sua capacidade de leitura e, certamente, estará escrevendo melhor.

Por João Luís de Almeida Machado

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