Pascal e o presente ausente

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Nunca permanecemos no tempo presente. Antecipamos o futuro, por chegar com muita lentidão, como para lhe apressar o curso; recordamos o passado, a fim de detê-lo, porque rápido em demasia: tão imprudentes que erramos nos tempos que não são nossos e apenas não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos que sonhamos como os que não existem e evitamos sem reflexão o único que subsiste. É que o presente comumente nos fere. Ocultamo-lo à vista, porque nos aflige; e, se nos é agradável, lamentamos vê-lo escapar. Tratamos de sustentá-lo pelo futuro e pensamos em dispor das coisas que estão ao nosso alcance para um tempo que não temos nenhuma certeza de alcançar. Que cada qual examine os seus pensamentos, e os encontrará sempre ocupados com o passado e com o futuro. Quase não pensamos no presente; e, quando o fazemos, é simplesmente para lhe tomar a luz, a fim de iluminar o futuro. O presente nunca é nosso fim; o passado e o presente são os nossos meios; só o futuro é o nosso fim. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver, e, dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca sejamos. (Miséria do Homem sem Deus. Reflexão de Blaise Pascal. Coleção Os Pensadores, Editora Abril).

Raramente vivemos o presente… Pascal tinha razão em suas sábias palavras acima reproduzidas. Talvez por isso mesmo, a felicidade seja tão efêmera ou distante. Sempre a vislumbramos no horizonte temporal, ao largo, milhas adiante e, quando pensamos que estamos a espreitá-la, próximos de torná-la realidade em nossas vidas, parece que a distância que nos separa novamente se coloca entre nós… Pare e pense em termos de suas próprias vidas… Pensamos, por exemplo, no diploma universitário como um marco que definirá a felicidade vindoura, a realização profissional, o emprego sonhado, a estabilidade pessoal e financeira e, depois que o temos nas mãos… Novas perspectivas futuras, como aquelas que tínhamos quando esperávamos o canudo da faculdade se colocam diante de nossos olhos e a felicidade sonhada outra vez ganha algum tempo de distância em relação a nós… Imagine a sensação de felicidade contida no casamento, na união com a alma gêmea, o cônjuge dos seus sonhos… A celebração e a festa se realizam, a noite de núpcias também, igualmente a lua de mel e… de repente, todos aqueles sonhos tão ansiados se foram e, em seu lugar, se colocaram outros, como o desejo de ter um automóvel ou uma casa própria, o anseio por melhores oportunidades de trabalho, a busca da perpetuação do enlace matrimonial com a vinda dos filhos… Quando será que conseguiremos viver a felicidade deste momento… a alegria contida, por exemplo, nas linhas que digito no presente texto, na reflexão que realizo, no encontro com Pascal, na possibilidade de dividir estas idéias com tantas outras pessoas pela Internet, no ar que respiro, na possibilidade de aqui estar, vivo e com saúde… Será que conseguiremos perceber o quanto estamos perdendo por apenas pensar naquilo que passou ou no que está por vir enquanto o que realmente temos entre os nossos dedos, o momento presente, simplesmente se esvai?
Por João Luís de Almeida Machado

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