Sonho Grande

Sonho-Grande“Sonho Grande” é o título do livro de Cristiane Correa que relata a trajetória dos empresários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrmann e Carlos Alberto Sicupira, lançado recentemente e já disponível nas livrarias e também para download no formato e-book. Não tenho dúvidas de que irá despontar na lista dos mais vendidos das principais publicações brasileiras e de que estará em destaque nas gondolas das movimentadas livrarias brasileiras localizadas em shoppings ou em ruas de comércio. Há um interesse muito grande das pessoas em entender como alguém chega lá, ou seja, de que forma uma ou mais pessoas consegue transformar seus sonhos em realidade. 

Neste caso, falamos de empresários que no início da década de 1980 já haviam conquistado destaque no mercado brasileiro com a criação do Banco Garantia, tendo transformado este empreendimento, inicialmente uma corretora, num dos principais núcleos de investimentos do país e da América Latina.

Não pararam por aí. Foram além. Desafiaram a lógica que predomina e estipula aos brasileiros a glória local ou, no máximo, regional, com destaque no cenário latino-americano. Superaram o célebre ‘complexo de vira-latas’, expressão cunhada por Nelson Rodrigues e foram investir em outros segmentos, comprando inicialmente a cervejaria Brahma e depois fazendo surgir a Ambev. Não satisfeitos, saíram pelo mundo e adquiriram também  a Amheuser-Busch, fabricante da icônica cerveja Budweiser, um símbolo americano. Juntaram-se depois aos belgas da Interbrew e possuem, hoje, a maior cervejaria do mundo, a Inbev.

Adquiriram depois empresas como o Burger King e a Heinz, igualmente simbólicas companhias representativas de produtos e serviços norte-americanos que estão espalhados pelos quatro cantos do planeta. Mas, como conseguiram chegar lá? O que fizeram? 

O prefácio do livro, escrito pelo professor Jim Collins, da Universidade de Stanford, traz 10 lições de Lemman, Herrmann e Sicupira que podem e devem servir de inspiração para muitos empreendedores e profissionais. Destaco algumas delas que me parecem universais, ou seja, aplicáveis ao mundo dos negócios e a vida e convido-os a ler, aprender, refletir e aplicar tais pensamentos e práticas, confiram a seguir:

1- “Invista sempre – e acima de tudo – nas pessoas” – A solidez de um empreendimento depende essencialmente da competência e qualidade das pessoas que trabalham e investem seu tempo ali. Acreditar nelas, atribuir-lhes responsabilidades, permitir que cresçam, sabendo que no caminho erros ou problemas surgirão (é inevitável), mas que estas pessoas podem fazer a diferença e virar o jogo a seu favor é o que abre a lista de Lemann, Herrmann e Sicupira. O sonho pode ser dos empreendedores, mas tem que ser compartilhado e legado a todos os colaboradores, para que se sintam importantes e que, com isso, realmente invistam seu tempo em favor das realizações, não simplesmente batendo cartão, mas vestindo a camisa.

2- “Sustente o impulso com um grande sonho” – Costumo dizer, e já ouvi isso de algumas pessoas importantes, que o negócio de uma editora não é vender livros e sim literatura, que uma gravadora não vende CDs, mas sim música, que uma escola não é lugar onde apenas se dá aulas, mas sim é espaço onde as pessoas crescem, se desenvolvem, prosperam… O que você quer? Sua meta é tão imediata que se esgota após o final do projeto? É tão simples que qualquer pessoa ou empresa pode realizar? Crie objetivos realizáveis mas desafiadores. O vitorioso técnico Bernardinho estipulou como meta para a Seleção Brasileira de Vôlei, umas das mais vitoriosas equipes esportivas de todos os tempos, chegar sempre entre as 4 melhores equipes de todos os torneios que disputasse. A meta tem sido atingida com louvor e, na maioria dos casos, o lugar no pódio foi o mais alto, com a medalha de ouro a brilhar no peito dos atletas…

3- “Crie uma cultura meritocrática com incentivos alinhados” – A valorização do trabalho, do labor, do suor e do empenho que gera resultados. Não importam apadrinhamentos, status, credenciais, cargos ou outros referenciais (idade, tempo de casa, currículo). Avaliar pelo desempenho, aplicação, comprometimento e pelas metas alcançadas é o que se busca. Há uma frase de grande impacto na introdução que precisa ser repetida para firmar esta ideia: “as melhores pessoas anseiam pela meritocracia, enquanto as pessoas medíocres têm medo dela”.

4- “A simplicidade tem magia e genialidade” – Participei de evento promovido pela Fundação Lemann e, ao final do dia, qual não foi minha surpresa que a saída do hotel onde havia ocorrido esta ação, atravessa a rua na minha frente o responsável por tudo aquilo, Jorge Paulo Lemann, um dos homens mais ricos do país, tranquilo, sem seguranças, andando ali sem ostentar ou sem ranço qualquer de arrogância que muitas vezes torna-se a tônica entre os ricos, famosos ou poderosos. Como destacado no livro, os três empresários são modestos, não tem escritórios suntuosos, não se afastaram de seus colaboradores, usam a riqueza adquirida para “simplificar” seu viver.  Duas ideias destaco deste trecho do livro: “Aprendi com eles que o melhor sinal da verdadeira riqueza não é manter uma agenda lotada, mas ter tempo disponível para se concentrar no que é mais importante” e “A verdadeira genialidade não é tornar uma ideia complexa, mas o contrário: transformar um mundo complexo em uma ideia bem simples”. No segundo caso não dá para dissociar da máxima de Leonardo Da Vinci, recuperada e valorizada por Steve Jobs: “A simplicidade é o máximo da sofisticação”. No primeiro caso, é inverter a lógica maluca que impera no mundo de hoje, no qual todos querem fazer tudo ao mesmo tempo agora e ninguém faz nada direito…

5- “Disciplina e calma (não velocidade) são a chave do sucesso em momentos difíceis” – Estamos vivendo cada vez mais no ritmo da tecnologia e isso não é bom. Não temos tempo para ponderar, maturar as ideias e projetos, pensar com mais propriedade a vida e as realizações nas quais estamos envolvidos. Tudo é para ontem. O desejo humano é o de resolver tudo o mais rapidamente possível, mas “quem tem pressa come cru”, ou seja, queima os dedos na assadeira e ainda tem dor de barriga depois porque a massa não assou o suficiente. É preciso escolher bem os ingredientes, untar a assadeira, bater e misturar os componentes do bolo, programar o forno, esperar os minutos previstos e depois deixar esfriar um pouco antes de consumir o produto final… No meio do furacão da crise mundial de 2008 os empreendedores do Banco Garantia haviam fechado negócio de 50 bilhões de dólares, simplesmente a compra da cervejaria Amheuser Busch… Com o mercado em pane, assumir uma dívida como estas seria assustador para qualquer um, nas reuniões que tiveram, no entanto, mantiveram a calma, trabalharam as variáveis dentro do tempo disponível, não se apressaram e, consolidaram os negócios…

6- “Busque conselhos e professores, e conecte-os entre si” – Aprenda sempre. Seja um aprendiz por toda a vida. Busque cursos, encontre pessoas, saiba ouvir. Compartilhe seus saberes mas tenha a humildade de escutar a experiência alheia. As lições vem dos mais experientes, dos vitoriosos mas também dos jovens, de estudiosos, de pessoas que não realizam fortunas, mas fazem a diferença naquilo em que trabalham… Lemann, por exemplo, cercou-se de pessoas como Sam Walton, Warren Buffett e outros visionários, mas aprende também com gente nova, que cria ou realiza ações diferenciadas. Além disso, se dispõe a colocar estas pessoas em contato, trocando ideias, crescendo e alimentando uma teia/rede de relações exponencial e poderosa.

São 10 as lições apresentadas na introdução do livro. Não trago todas elas para provocar seu interesse e fazer com que leia a obra. Termino apenas ressaltando um trecho em que o autor destaca como realizadores do porte de Lemann, Sicupira e Herrmann devem causar orgulho aos brasileiros. Ele os compara a grandes empreendedores da história mundial, como Walt Disney, Henry Ford, Akio Morita (da Sony), Sam Walton (Walmart) e Steve Jobs. Fiquei, particularmente, muito feliz ao perceber que o “Sonho Grande” não tem fronteiras, nacionalidade e que pode, muito bem, ser também brasileiro.

Por João Luís de Almeida Machado

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